Liberdade seletiva: Condenamos o passado, ignoramos a escravatura moderna
Vivemos numa era marcada por uma aparente consciência moral elevada. Nunca se falou tanto de liberdade, de direitos humanos e de dignidade. Nunca se levantaram tantas vozes para condenar as injustiças do passado. E, no entanto, raramente se observa a mesma intensidade na análise das injustiças do presente.
Portugal é frequentemente chamado à discussão quando o tema é a escravatura e o colonialismo. E bem: a História não deve ser apagada, nem romantizada. Deve ser estudada, compreendida e debatida com rigor. Mas compreender implica ir além da indignação imediata e das leituras simplistas.
Portugal teve um papel relevante no sistema esclavagista global — esse facto é incontornável. Mas é também verdade que foi um dos primeiros países a abolir práticas que hoje consideramos inaceitáveis, como a pena de morte e a própria escravatura no plano legal. Esta dualidade não serve para absolver responsabilidades históricas, mas obriga a uma reflexão mais madura.
Importa ainda reconhecer que a escravatura não foi um fenómeno exclusivo das potências europeias. O sistema atlântico veio amplificar uma realidade existente, transformando-a numa estrutura global profundamente desumanizante.
Mas a questão central que se impõe hoje é outra: estaremos verdadeiramente preocupados com a dignidade humana ou apenas com a forma como julgamos o passado?
No século XXI, a escravatura não desapareceu. Mudou de forma, tornou-se menos visível, mais difusa — mas continua presente. Sob designações como precariedade laboral ou economia informal, persistem realidades que colocam milhares de pessoas em situações de extrema vulnerabilidade.
Na agricultura, na construção, nas cadeias logísticas e até nas plataformas digitais, existem formas de exploração que não podem ser ignoradas. São menos evidentes do que as do passado, mas não necessariamente menos graves.
A incoerência é evidente: condenamos com veemência as injustiças históricas, mas demonstramos complacência perante as injustiças contemporâneas.
A pressão sobre as famílias é outro reflexo desta realidade. Constituir família tornou-se, para muitos, um desafio crescente. O aumento do custo de vida, a instabilidade laboral e a insuficiência de políticas públicas eficazes colocam milhares de agregados numa situação de fragilidade.
Criámos uma sociedade onde os direitos são proclamados, mas nem sempre garantidos. Onde a liberdade é celebrada, mas frequentemente condicionada.
Nada disto implica relativizar o passado. Pelo contrário: implica honrá-lo com coerência.
Talvez a maior contradição do nosso tempo seja esta: nunca falámos tanto de liberdade, mas continuamos a tolerar formas de exploração que a negam.
A escravatura não desapareceu.
Apenas mudou de nome.
E talvez o maior problema não seja a sua existência — mas a nossa indiferença perante ela.
António Ricardo Antunes Miranda
