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Itamar Vieira Junior: as muitas vidas na literatura

Baiano de Salvador, Itamar Vieira Junior é geógrafo e doutor em Estudos Étnicos Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor das coletâneas de contos Dias (2012), A oração do carrasco (2017), finalista do Prêmio Jabuti, e do romance Torto arado (2018), que recebeu o prêmio Leya de Literatura, em Portugal. Sua obra foi traduzida para o inglês, o francês e o espanhol. Como bem observou o escritor Marcelo Maluf, “Itamar expõe as feridas de um Brasil que não gosta do que vê quando olha para si mesmo. Por isso, a urgência de sua leitura, por nos revelar essa consciência com coragem e beleza.”

Qual a melhor lembrança, relacionada aos livros, que guarda da infância?

Os horizontes que se firmaram à minha volta. A descoberta da leitura foi descobrir que uma vida só não basta, podemos ter muitas outras, e a literatura abriga universos paralelos onde seremos outros. Eu poderia ser uma lesma, uma raposa, eu poderia entender outros mundos que não eram os meus.

Há tempos, você pesquisa as histórias das comunidades rurais negras da Bahia. Em que sentido elas influenciam sua obra?

Influenciaram a escrita de Torto arado, especialmente, porque é uma narrativa que apresenta a história de um segmento fragilizado e invisível da nossa sociedade: os quilombolas. E por que essa história? A precariedade do trabalho, a ilusão da abolição, dos princípios da igualdade. Há inúmeras farsas na história de nosso país. Era sobre isso que queria escrever.

Em seu processo de escrita há algum ritual?

Eu escrevo muitas vezes. Leio e reescrevo quase que compulsivamente. Costumo escrever sobre muitas coisas, mas nem tudo é aproveitável. Quando estou em um projeto de livro, por exemplo, costumo escrever todos os dias, quase sempre no mesmo horário. Eu sou funcionário público, então disponho de poucas horas para escrever à noite, um tempo que preciso compartilhar com leituras, porque elas alimentam a minha escrita. Eu preciso estar só também. E de preferência sem preocupações como a da atual pandemia.

Qual a importância de abordar na literatura o universo regionalista? Que autores regionalistas contribuíram em sua escrita?

Quando eu imaginei a história de Torto arado, há vinte anos, eu estava profundamente influenciado pelas nossas obras regionalistas da década de 1930, 1940. Foi assim que aprendi com minha professora de literatura, Therezinha Acioli. Depois, eu passei a refutar este rótulo. Costumamos a dar nomes ao que não faz parte do nosso ambiente e entorno. Tudo o que não estava no centro – Rio e São Paulo – era descrito como regionalista. Era literatura, falava da experiência humana que é universal, que atravessa todos os povos e lugares de maneiras distintas. Se eu pudesse citar apenas dois autores que influenciaram profundamente a minha escrita seriam Jorge Amado e Érico Veríssimo.

Pode nos contar um pouco do processo de elaboração de Torto Arado, ganhador do Prêmio Leya 2018?

Torto arado é um romance antigo, que alimento desde a minha adolescência. O núcleo original da trama, a relação entre as irmãs, o pai e a terra, vem dessa época. Cheguei a escrever 80 páginas que se perderam numa mudança que fizemos. Anos depois, voltei à história e a minha vivência profissional tornou tudo muito verossímil, me deixou à vontade para falar sobre uma realidade que não era a minha. Pouco a pouco, fui construindo a forma que a história seria contada, optando pela oralidade da narrativa em primeira pessoa, porque de outra forma não me soava bem. Os eventos foram se encadeando. Escrever este romance foi uma espécie de maravilhamento, uma declaração de amor à literatura, aos camponeses, aos meus antepassados.

O momento atual por que passa o Brasil comprova que a história é cíclica e que os carrascos de Torto arado e A oração do carrasco estão entre nós.  O que dizer dos caminhos que percorre nosso país neste 2020?

O Brasil é uma imensa ferida. Um país que nunca esqueceu o seu passado colonial e insiste colonizar a si mesmo. Essa história de tragédias está mais agravada agora por terem levado ao poder um homem que tem a violência como um guia para executar o projeto neoliberal de nossa elite. Não por acaso, vivemos uma escalada sem precedentes da violência no campo, nas comunidades indígenas, na destruição dos nossos ecossistemas. O Brasil está nas mãos de um carrasco que representa a sua elite e a pandemia atual nos mostra isso com muita clareza.

Você declarou que Torto arado tem certa relação com um verso do poema Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga. Como se dá tal relação?

Coisa de apaixonado por literatura, de procurar título em meio a versos. Eu havia lido Marília de Dirceu ainda adolescente e este verso: “A devorante mão da negra morte/(…)lhe arranca os frios ossos/ferro do torto arado”, me marcou profundamente. Este objeto mágico se lançou na vida destas personagens com a energia dos antepassados que o carregaram e eu percebi que este era o título.

Zeca Chapéu Grande, personagem central de Torto arado, é líder do Jarê, religião afro-brasileira, praticada na região da Chapada Diamantina. Ele é também mediador de conflitos entre os trabalhadores rurais. De onde a inspiração para construí-lo?

A inspiração veio dos trabalhadores rurais que conheci ao longo de minha vivência no campo e também das histórias que me foram contadas pelos que conviveram com homens da grandeza deste personagem.

O final de Torto arado é narrado por uma entidade do Jarê. Como foi mergulhar no universo de uma religião afro-brasileira?

Eu tive contato com o Jarê durante minha pesquisa de doutorado e fiquei fascinado. O Jarê é um sistema de crenças que floresceu na Chapada Diamantina, só existe lá, e se desenvolveu em circunstâncias bem específicas. No panteão de seres mágicos, os encantados, encontrei uma que se chamava Santa Rita Pescadeira, mas ninguém sabia muita coisa sobre ela. As últimas pessoas a conhecerem essa encantada já haviam morrido e com elas levaram os segredos. Foi então que preenchi essa lembrança com criação literária e pensei em tudo que um ser com este nome poderia guardar e fazer. Foi assim que ela chegou, como a consciência da história, que nos diz com exatidão que o passado não nos abandona.

Em Torto arado, a questão de gênero se faz presente nas personagens Belonísia e Bibiana. Como a literatura pode contribuir na discussão de um tema de tanta relevância?

Bibiana e Belonísia são protagonistas, porque eu queria contar uma história sobre a Chapada Diamantina e uma comunidade quilombola, teria que falar sobre o protagonismo das mulheres nesses contextos. Elas vivem numa sociedade profundamente patriarcal e por isso sofrem duplamente com os infortúnios da vida. Mas nem por isso se abatem, são fontes de inesgotável coragem, e o livro reflete a força das mulheres camponesas que encontrei em meu caminho. A literatura não tem o intuito de contribuir para as discussões de temas sociais, mas, por lançar luz sobre realidades tão diversas e ao mesmo tempo nos permitir a empatia, nos induz a pensar sobre as questões humanas.

Algum novo projeto literário a anunciar?

Tenho um projeto muito inicial, mas que só deve ganhar corpo e vida com o passar do tempo. Ou seja, ele só existirá quando estiver escrito.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

 

 

 

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