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Impressões obviamente imprecisas. São Paulo: a cegueira e o olhar

O cheiro das ruas era intenso, como as cores das árvores frondosas em torno da Praça da República em São Paulo. Mas essas árvores apenas eram a parte da flora dessa zona da cidade. Nela, e envolvendo-a, os quarteirões apresentavam uma fauna humana difícil de descrever. Vi-me, inesperadamente a atravessar essa praça central, confrontando-me com uma ecologia do humano que quebrava todas as barreiras da conceptualização.

A sensação era por demais estranha. Depois de um quase pânico inicial, concluí que eu não chegava a ter medo, porque aqueles que mal me poderiam fazer quase não eram fisicamente humanos. Deitados nas beiras dos passeios, na relva do jardim, mais que sujos e famintos, rebaixados a um nível de não-humanidade que eu nunca tinha visto, eles já não provocavam medo algum.

Mesmo eu, sempre receoso de um passeio pelas ruas de S. Paulo, ali eu deixava de ser um potencial alvo no meu casaco direito e camisa de manga comprida. Eu passava e nem me olhavam, não olhavam para o que os rodeava. O mundo deveria parecer-lhes uma imensa bola brilhante para onde não podiam ir. Mais que não poderem, não queriam mesmo ir. Aqueles olhos vazios de olhar eram a recusa, naquele momento, a ver-me, sequer. Eu estava ali, mas, verdadeiramente, eu não existia.

Lembro uma situação passado há longos anos no bar da Biblioteca Nacional, em Lisboa. Estava e sentado numa mesa, já depois de ter comido, mas totalmente quieto a pensar nas minhas pesquisas, quando uma funcionária trouxe pelo braço um cego. Tudo com pequenos gestos de cabeça, ela perguntou-me se o podia sentar à minha frente, eu respondi o natural sim. Ele sentou-se, ela colocou-lhe o tabuleiro à frente. E eu não consegui fazer mais o mínimo gesto que fosse para agitar aquele ambiente em que não sei se o meu companheiro de mesa julgava estar só, totalmente recolhido na sua refeição ele estava.

Também aqui, aquele atravessar da praça para ir tomar café foi dos mais longos pedaços de tempo da minha vida. Deveriam ser uns 80 inesgotáveis metros, corpo após corpo, no chão indiferente. Passei a passo não muito rápido. Não consegui ter o olhar de algum deles. Não sei mesmo se chegavam a ter olhos.

Antes, ao início da manhã, cheguei de carro e passei por perto da República – o nome, dito assim, fica ainda mais irónico – numa zona então baptizada como “cracoloandia”. Sim, o supermercado de crack. Pareceram-se ser dois quarteirões, apenas, mas dos mais degradantes que a imaginação pode atingir. Não devo errar muito se comparar os passeios por onde passei aos piores campos de refugiados da África central em plenos genocídios étnicos.

Só consigo escrever agora ao fim de vários anos. Antes, não tinha palavras, só imagens brutais. Imagens de dezenas de crianças e jovens, não mais velhos que o meu filho que então era adolescente. Não eram pessoas, nem sequer eram bichos. Eram corpos famintos e, alguns, ensanguentados de uma qualquer luta por coisa nenhuma, com uns calções e um cobertor enrolado ao corpo.

A cegueira é dos tópicos mais profundos da literatura e do pensamento. Não sei a que cegueira me deva referir e a qual deva apontar a minha fala. Inertes, muitos; vagos, num olhar inexistente resultante da última toma de algum químico, outros. Todos eram o produto de uma outra cegueira social que convivia com estas dezenas de bandos de crianças a vaguear, entregues a uma morte num prazo muito curo.

Um dos meus alunos, nessa turma que eu tinha ai mesmo junto à Praça da República, falou-me de uma missão baptista que se tinha instalado na cracolandia. Talvez fossem eles que distribuíam os ditos cobertores, talvez. Ironicamente, davam para aquecer e para cobrir os corpos quando faziam sexo. Nesse momento, percebi que talvez ainda tivessem olhos. Eram dois rapazes e sorriam abertamente um para o outro, abraçados no chão, cobertos com esses cobertores “baptista”. Só os vi no tempo de um semáforo. Sorri. Não sei se viram o meu sorriso, mas tinham olhos. Sim, vi-os e estavam a sorrir.