De que está à procura ?

Portugal

Humberto Correia: Ex-emigrante em França quer ser o próximo Presidente da República

© dr

Humberto Correia, 64 anos, natural do Algarve, é uma das surpresas das eleições presidenciais portuguesas de 2026. Independentemente de ser outsider no circuito político tradicional, a entrega de quase 10 mil assinaturas ao Tribunal Constitucional — bem acima do mínimo exigido — garante que o seu nome estará na corrida a Belém. O candidato apresenta-se como independente, com uma plataforma focada na pobreza e na habitação, temas que identifica como os maiores desafios do país.

O percurso de Correia é incomum para um candidato à Presidência da República. Ainda jovem, partiu para França — onde reside hoje a maior comunidade portuguesa no estrangeiro — em busca de oportunidades que Portugal não lhe oferecia na época. A sua experiência de vida como emigrante, inserida numa das diásporas portuguesas mais numerosas e históricas da Europa, é um dos pilares da sua narrativa pessoal e política.

Após anos fora, Correia regressou a Portugal e fixou-se em Faro, no Algarve, onde passou cerca de duas décadas a pintar quadros nas ruas da cidade. O contacto direto com as pessoas, as suas histórias quotidianas e as dificuldades de muitas famílias portuguesas influenciaram profundamente a sua visão do país. Além da pintura, dedicou-se à escrita, publicando o livro As Pulgas da Minha Infância, uma obra de cariz autobiográfico em que revisita as memórias da sua infância e as desigualdades sociais que marcaram o seu percurso.

A experiência em França — um país que acolhe a maior comunidade portuguesa fora de Portugal e onde os sistemas sociais e educativos têm características diferentes — moldou a forma como Correia olha para as políticas públicas. Ele próprio tem frisado que a exposição a outra realidade europeia reforçou nele a convicção de que políticas estruturantes podem fazer a diferença no combate à pobreza e às desigualdades.

Na sua candidatura, Humberto Correia define a pobreza e a crise da habitação como prioridades nacionais. Critica o atual enquadramento social em Portugal, afirmando que “80% dos portugueses são pobres e 20% vivem na miséria”, uma formulação polémica mas que pretende evidenciar uma sensação de fragilidade económica generalizada. Para ele, o agravamento do custo da vida, a precariedade laboral e a falta de respostas habitacionais adequadas convergem para uma crise social profunda que exige intervenção estatal robusta.

No que diz respeito à habitação, Correia fez da construção de habitação social um dos pilares das suas propostas. Invocando o artigo 65.º da Constituição da República Portuguesa — que consagra o direito à habitação — defende a construção de 100 mil habitações sociais por ano, em cujo arrendamento o Estado fixaria rendas acessíveis. Em declarações à RTP, apresentou exemplos concretos dessa política: casas de 30 metros quadrados com renda mensal de 90 euros e habitações de 50 metros quadrados por 150 euros, valores que considera compatíveis com a capacidade económica de muitas famílias.

Na área da educação, refere-se novamente à sua experiência francesa como referência positiva. Defende a adoção em Portugal de um sistema em que a escolaridade obrigatória comece aos 3 anos — como em França — em vez dos 6 anos vigentes, argumentando que a educação precoce é um fator de equidade e de combate às desigualdades estruturais.

Politicamente, Correia descreve-se como alguém de centro-direita, mas com uma postura pessoal livre de filiação partidária: “Penso eu…”, costuma dizer, lembrando que nunca integrou um partido político. Esta posição reforça a sua imagem de candidato independente, fora dos aparelhos partidários e mais próximo de uma representação directa da sociedade civil.

A componente simbólica da sua campanha tem atraído atenção mediática pela sua singularidade. Correia iniciou um périplo pelo país vestido como D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, explicando que se trata de uma forma de “criar impacto nas pessoas” e de despertar um sentimento de orgulho histórico e identidade nacional. Referiu-se à inspiração que encontra em figuras históricas portuguesas como forma de transmitir a importância do orgulho colectivo e da confiança no futuro.

A recolha de assinaturas para formalizar a candidatura começou ainda em maio de 2021, mostra de uma persistência fora do comum para um projecto político pessoal. O longo processo culminou agora na validação da sua presença na corrida presidencial, numa altura em que o debate público em Portugal está fortemente dominado por questões económicas, sociais e por uma crescente preocupação com o custo de vida e a acessibilidade à habitação.

A experiência de vida de Humberto Correia — de emigrante em França a artista urbano em Faro e agora candidato à Presidência — contribui para um perfil singular no quadro das eleições de 2026. A sua candidatura levanta questões sobre representatividade, inclusão e sobre a forma como as experiências individuais fora do circuito político tradicional podem ser transformadas em plataformas de debate cívico. E, porventura, sugere que o fenómeno migratório, mais do que uma experiência pessoal, pode ser também um capital simbólico e político numa sociedade cada vez mais marcada pelas mobilidades globais.

TÓPICOS

Siga-nos e receba as notícias do BOM DIA