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Histórias d’emigração

Clara, sentada no sofá da sala, junto à janela, olhava o mundo para lá das vidraças enquanto ao mesmo tempo refletia no rumo da sua vida e da do seu filho.

Cansada, tentava descodificar as sombras que insistentemente gritavam no rosto daquele adolescente; havia muito pouco tempo era ainda uma criança alegre, doce, irrequieta, sempre pronto a atirar-se para o colo da mãe, sufocá-la num abraço ou encher-lhe o rosto de beijos. Sempre pronta a ir para a rua correr atrás de uma bola, sempre com um espírito de grande alegria e liberdade

João tinha 16 anos, entrara na adolescência com tantos sonhos, com tanta vontade de explorar o mundo, tantas promessas por cumprir, mas com o passar das semanas o seu olhar se entristecia, de uma tristeza nova, sem nome, a escuridão de quem corre o mundo errante, João sofria de dores invisíveis aos olhos da mãe, sofria sobretudo das dores de quem descobre o mundo e não se enquadra nele.

A cada dia que passava, João perdia o gosto pela escola, pela vida, pelo futuro, fechava-se dentro do quarto, num mutismo sombrio. Tinham-lhe roubado aos poucos o amor-próprio, a autoestima, a confiança em si próprio.

A Mãe perguntava-lhe vezes sem conta: – o que tens filho?

– Nada mãe – respondia ele. Eram tantos nadas sem resposta, tantos silêncios a procurarem palavras, definições, sentidos…

Mas Clara sabia, sentia no seu coração de mãe que o filho carregava no coração o peso da descoberta do mundo, a injustiça dos homens, o desamor da vida, do vazio de ideais.

A mudança de país, de língua, a exigência da nova escola, a falta de empatia por parte dos colegas, dos professores, a perda gradual do entusiasmo que tanto o habitavam.

Como se pode carregar aos ombros o peso da injustiça do mundo quando se acaba de entrar no mundo dos homens?

Como aceitar a herança paternal dos medos, da inaptidão, do peso da exclusão social, da discriminação?

A mãe sabe que o filho nunca se adaptou ao novo pais, que o seu coração tinha ficado lá longe junto ao mar, perto dos seus amigos de infância. Estes pais era um ser estranho colado ao corpo, como o frio a que nunca se habituara. Fora obrigado a mudar tudo, a escola, os amigos, a língua, o mundo inteiro a desabar dentro do seu mundo, e o refúgio era o silêncio e a tristeza.

Clara não cedia aos apelos do filho para voltar, fora ali que reconstruira a sua vida, fora ali que colara os pedaços de sonhos, de esperanças, ceder, seria arruinar de novo todos os projetos de uma vida melhor e mais digna, descer a escada do desamor e do desencanto, e sobretudo a vontade de dar ao filho um futuro melhor.

– Juntos haveremos de superar as dificuldades, com o tempo aprendes a língua, fazes novos amigos, encontras quem sabe uma namorada, com o tempo…

Mas para João, o tempo tinha parado no dia em que deixara o país onde nasceu. Ninguém lhe perguntou se queria vir, ninguém quis saber de como o seu coração se estilhaçava aos poucos, ninguém sabia de como sofria na escola, de como era humilhado pelos professores, por alguns colegas. Ninguém sabia de que cores eram feitas as suas noites e a solidão dos dias.

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