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Geração Apocalipse

© Flickr/US Government

Ouvi um dia um professor dizer num documentário que sempre viveu com a impressão de que algo grande, devastador, aconteceria um dia à Humanidade, no nosso tempo de vida. Ora isto foi precisamente o que sempre pensei. Mas há algo de sobrenatural nisso, há algum conhecimento omnisciente e ou uma sapiência inata em nós que nos deixe prever um futuro negro, ou melhor, uma ausência de futuro?

Eu devia ter uns 12 ou 13 anos e passava o tempo a descobrir sentidos encobertos em tudo o que me acontecia, concluindo que nada era obra do acaso. No meu egocentrismo adolescente, comecei a suspeitar que era joguete em mãos divinas, uma experiência no tubo de ensaio de um ser maior. Mas a minha arrogância ia mais longe. Eu não era apenas uma cobaia, um animalzinho a ser testado e por isso amaldiçoado por não poder ter mão no meu próprio destino, eu era também, portanto, um ser único e privilegiado, por ser “a experiência” desse ser divino. Isso levava-me a concluir que não só nada era acaso, como tudo o que me rodeava – 

pessoas, ruas, cidades, planetas, inclusive o próprio universo, a grande questão que me obcecava era até onde isso se estendia –, 

tinha sido criado apenas para mim, para o propósito dessa experiência, como se o monstro divino tivesse construído um terrário, ambiente controlado, apenas para mim, a formiga, o objeto observado.

Dentro da Matrix

Quando muitos anos mais tarde vi o filme ‘Matrix’ (1999), dos irmãos Wachowski, foi como uma revelação para mim. Afinal, havia mais gente no mundo a pensar coisas tão aparentemente absurdas como eu. E isto indicava que eu estava certo no meu delírio? Ou provava de alguma maneira a possível existência de uma consciência coletiva transversal a toda a Humanidade?

Analisei a coisa melhor. Concluí que somos “apenas” o produto complexo de um conjunto de ingredientes, não só genéticos, mas também mentais e psicológicos, que herdámos da nossa família, da nossa educação familiar, religiosa, escolar, académica, do nosso quadro social, mais tarde profissional, e do que vamos rejeitando e escolhendo ir aceitando desse caldeirão de receitas e respostas já prontas. Algumas delas aparentemente incompatíveis. Mas fizemos a síntese. Somos a síntese. Um produto inacabado porque sempre em evolução.

O fim de tudo?

Para regressar ao tal professor, ele disse ter pouco mais ou menos a mesma idade do que eu. Ou seja, talvez a nossa geração, na verdade as gerações X,Y, Z – os ‘millenials’ quem sabe menos! –, foram tão expostas, bombardeadas com esse tipo de histórias de fim do mundo, de apocalipse eminente, de catástrofe global, que hoje transportamos isso em nós, como se esperássemos o premir do gatilho a qualquer momento.

A pergunta não é tanto se vai ser premido, mas quando. Penso que esse medo é uma herança direta da Guerra Fria, bem como da ameaça  que logo a seguir eclodiu, ainda o Muro de Berlim não tinha bem caído, de uma catástrofe ecológica. A juntar à soma destes medos acrescente-se todos os temores explorados há um século pela ficção, pela ficção-científica, pelas narrativas distópicas de que a minha geração foi, é e continua a ser ávida consumidora: invasão de extraterrestres, guerra total, holocausto atómico, inverno nuclear, pandemia global, colapso económico mundial, mudança do eixo da Terra, sopro solar devastador, raios galácticos mortais, entre muitos outros fins possíveis, com um único resultado: o extermínio de toda a Humanidade.

É claro que esta crença pode não “afetar” todos os da minha geração. Depende do que consumiram, literatura, cinema, televisão, jogos. Ou do fumaram. O que acredito, de fato, é que esses universos criaram um certo imaginário coletivo, que não sei se se pode chamar consciência coletiva de uma geração. Mas é inegável que esse imaginário determinou a forma como pensamos, decidimos, vivemos e digerimos cada notícia terrível que pulula nos telejornais ininterruptos da televisão como se o mundo tivesse mesmo para acabar no minuto seguinte.

Consciente disso, tento furtar-me à consciência coletiva, à minha tendência natural, porque descobri que afinal essa tendência não é inata, mas fabricada, artificial, cultural. Deixei de acreditar no destino, de que tudo está pré-determinado e que só eu que escolho o meu caminho. Depois esforço-me por acreditar que não estamos no fim, mas no princípio, na aurora da Humanidade. E vistas bem as coisas, quer seja em grutas escuras ou no espaço sideral – as formas como ainda hoje nos coçamos, caçamos, subimos na árvore social, nos alimentamos, brigamos e acasalamos – continuam a ser baseados em instintos tão primitivos como os dos macacos dos quais descendemos.

No fim destas viagens alucinantes pelos meus meandros, que muitas vezes me deixam a mim mesmo com vertigens, acabo sempre por concluir que quanto mais sei, menos sei. Mas, apesar disso, estas incursões turísticas em mim e a materialização catártica pela escrita das minhas crenças, da minha falta de fé no divino, mas de esperança na Humanidade, e desses medos recalcados fazem-me bem. Porque não servem apenas para me experimentar numa tentativa (vã?) de literatura onânica, recorro sobretudo a essa fugas para dentro para exorcizar os meus medos cá para fora.

JLC03052012 

Foto: Flickr/US Government

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