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França, 1916, Batalha do Somme

são treze horas e sete minutos
nas desfloridas margens do Somme
a noite dura já há três semanas
a batalha há vários meses há vários abismos há vários calvários
chove há quatro dias sem cessar
impera o inferno o impensável e a carnificina
há fome frio fadiga e ferimentos acampados
obstinadamente nos corpos e nos espíritos
lágrimas a bolorecer olhos gazes a carcomer pulmões
na copa do húmus mais que repisado apenas arame farpado floresce
cheira a fazes a urina a carne podre a cloro a pólvora a hecatombe
os piolhos não param de ganhar terreno

onde está o céu? pergunta a arder em febre um cabo

na trincheira ninguém responde

vejam ali vai ele ferido a rastejar
mete dó coitado
atira pouco tempo depois
à mercê de uma gangrena o enfermo

rebolam balas bombas balázios

o soldado William
chegado a França há exactamente um mês
faz hoje vinte e três anos
os camaradas abraçaram-no assim que acordou
embora nada tenha dormido
feliz aniversário muitos anos de vida
depois todos juntos cantaram-lhe os parabéns
eram cinco da manhã

agora são treze horas e sete minutos
o soldado William está longe da sua pátria e muito perto da morte
tem nas mãos um terço de sangue
na boca uma oração de silêncios

como se reza diante do altar do inferno?

no ar rebolam balas bombas e balázios
porém o soldado William de tempos a tempos
nada mais ouve senão as palavras da sua noiva
ela diz-lhe o quanto o ama pede-lhe para regressar vivo
que regresse rapidamente

de súbito um rebentamento inenarrável
os tímpanos quase lhe rebentam
durante dois minutos e vinte e oito segundos
– isto no inferno corresponde a dois dias e algumas horas –
durante dois minutos e vinte e oito segundos
o soldado William fecha
forte e aflitivamente os olhos
percorre dezenas de vezes aos gritos
de ponta a ponta o coração
golpeado pânico vulcânico o soldado William
cai moribundo no bastião da sua alma e chama pela mãe
chama três cinco sete vezes pela mãe
a sua mãe não responde
os seus olhos abrem-se de repente
e o militar transforma-se num animal apavorado

o soldado William treme de medo
treme de frio treme de dor treme de desespero
treme de choro treme de desnorte
treme porque os seus camaradas tremem

um anjo diz-lhe ao ouvido que está a enlouquecer

como não enlouquecer na eucaristia do inferno?

é dada a ordem de atacar
o soldado William coloca a mão trémula
sobre o ombro do seu melhor camarada
e diz-lhe coragem vai correr tudo bem
e morde os lábios
morde os lábios até ao sangue
as pernas pesam-lhe mais que o corpo todo
consegue a muito custo alguns passos
cai levanta-se lança uma granada de gritos
arregala neuróticos espasmos vertigens os olhos
(que faço eu aqui? que faço eu dentro desta farda? que fizemos nós?
quem roubou o senso aos homens?
para que serve a guerra?
quando terminará este pesadelo?
quanto tempo faltará para a floração das papoilas?
quantos anos tenho?

azul fogueira nuvens flauta
as minhas mãos no sol ribeiro
almofada cotovia
logo que ponha os pés na Inglaterra
encherei de beijos a boca da minha fada
beijos também em todas as árvores dos meus pomares
plantarei mais árvores muitas flores
haverei de escrever um longo poema sobre a primavera
chamarei os meus amigos e juntos
esvaziaremos várias garrafas
Finn busca busca lindo cão

esqueci-me de apertar as botas
de quem é esta arma que tenho nas mãos?
que faço eu aqui?)

as suas últimas palavras são para Deus
Deus meu dizei à minha querida Anne
que a amo com o maior amor deste mundo
que a amo mais que a minha vida
que que que

no ar rebolam balas bombas balázios
uma profusão de cardumes de enxames
de estilhaços saraivando infernalmente
pelotões de lança-chamas
todo o fogo do inferno desabando
sobre umas centenas de homens
bailam pedaços de carne
rajadas de sangue jorros de sangue
esgares gemidos ecos de gemidos
estrebuchamentos desmaios delírios
convulsões terríficos estertores
sangue quente sangue fermento
sangue sangrento sangue sangrando
metralhadoras de sangue
uma orquestra de sangue
uma tempestade de sangue
um eficaz e soberbo mecanismo de sangue
ribeiros rios lagos e lagoas de sangue
um mar de sangue um continente de sangue
a morte lambuzando-se de sangue

o soldado William capacete na cabeça
bornal nas costas
espingarda nas mãos
alma na lama
cospe para o chão benze-se uma e outra vez
morde os lábios em sangue
acelera o passo
esgotou a valentia
tenta conter as lágrimas mas os olhos
não têm arcaboiço para sustê-las

no inferno não há milagres
o soldado William sabe que vai morrer

no lado alemão uma implacável barragem de artilharia
auxiliada pelo génio militar da morte dispara prodigiosamente
aprimora o inferno

o soldado William vê tombar dezenas de camaradas
vê o melhor camarada morrer à sua frente
logo depois penetram-lhe três balas no coração
duas na cabeça uma no baço e uma na bexiga

o militar olha à sua volta
procura Deus
o cadáver que foi adiando cai
numa poça de lama sangue e escuridão
ouve a maior gargalhada que soltou na infância
sente a mãe a beijar-lhe os cabelos sorri
o soldado William vê Anne vestida de branco esperando-o no altar
o soldado William caminha feliz
avança até ao meio da nave da igreja
detém-se a contemplar a mulher da sua vida
e o dia mais feliz da sua vida e cai
Anne desata a gritar e vai rápido em seu auxílio
o soldado William estende os braços como uma criança que pede colo
uma pomba de sangue estilhaça um dos vitrais da antiquíssima construção
o soldado William solta três sílabas imperceptíveis
deixa cair as pálpebras

e morre

dm

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