Ao longo do último século, venderam-nos a ideia de que um psiquiatra é barbudo, careca, míope, com um cachimbo e uma bengala, por vezes envolto em vestes excêntricas. E os pacientes? Os lobotomizados de Egas Moniz: apáticos, sedados, engaiolados em hospícios, vítimas das mais variadas atrocidades, incluindo eletrochoques sem anestesia, como em “Voando Sobre um Ninho de Cucos”.
Deixe-me dizer-lhe: não podia estar mais enganado(a).
Começando pela aparência física, a esmagadora maioria dos psiquiatras da atualidade já não encaixa no estereótipo erroneamente perpetuado pelos media, sendo comum ouvir em consulta: “Oh, doutor, não tem nada ar de psiquiatra!” (sic). Resta saber se se trata de um elogio…
A leucotomia pré-frontal, que valeu a Egas Moniz um Prémio Nobel da Medicina, foi abolida há mais de 60 anos, tal como a malarioterapia e outras técnicas outrora utilizadas na Medicina — uma ciência que, como muitas outras, está em constante evolução e aprimoramento. A eletroconvulsivoterapia (ECT) continua a ser amplamente utilizada em contexto hospitalar, mas conta atualmente com o auxílio de um anestesista, tornando-se um procedimento indolor. Hoje em dia, mantém-se como um dos tratamentos mais eficazes em Psiquiatria, sendo aplicado na depressão e na esquizofrenia resistente ao tratamento, com um perfil de segurança tão favorável que permite até a sua utilização em grávidas.
Os antigos asilos e hospícios estão gradualmente a desaparecer, e o internamento psiquiátrico está a ser progressivamente integrado nos hospitais gerais. Ao contrário do que sucede noutros internamentos médicos, os doentes não permanecem acamados: deambulam pelos corredores e pelas áreas sociais durante o dia, deslocam-se ao refeitório para as refeições e até ao bar para um café. É frequente a existência de espaços exteriores onde podem passear.
A medicação evoluiu drasticamente e o foco do tratamento passou da doença para o doente, do modelo biomédico para o biopsicossocial. O perfil de efeitos adversos é altamente escrutinado antes de cada prescrição, acabando por ser muitas vezes o fator decisivo para a escolha, visto que a eficácia é muito sobreponível entre fármacos de primeira linha. Os antidepressivos atuais têm, em geral, menor ou mesmo nenhum impacto na função sexual e no peso (alguns até diminuem o peso), e os antipsicóticos modernos apresentam um perfil muito mais favorável em termos de rigidez motora, hipersalivação e sedação — podendo, em muitos casos, ser administrados de manhã.
Também nos tratamentos a ciência trouxe inovação, com a estimulação magnética transcraniana (TMS), um método não invasivo que utiliza uma bobina semelhante a um “secador-capacete dos anos 50’’ e recorre a tecnologia análoga à da ressonância magnética para exercer um efeito de neuromodulação no cérebro. Esta técnica tem indicação para a depressão e para a perturbação obsessivo-compulsiva, estando atualmente a ser estudada para outras aplicações. Trouxe também a escetamina, um isómero da cetamina com propriedades psicoativas, administrado por via intranasal para a depressão resistente ao tratamento, com resultados promissores.
O véu do psiquiatra omnisciente e paternalista caiu, aproximando os intervenientes no tratamento e incentivando a tomada de decisão partilhada e individualizada para cada doente. A psicoeducação, tanto do doente como dos seus familiares, tornou-se uma parte essencial do tratamento, pois explicar em português — e não em “psiquiatrês” — a natureza da doença e as opções terapêuticas disponíveis, tanto farmacológicas como não farmacológicas, tem por si só um efeito terapêutico.
E, claro, não poderia deixar de enfatizar a psicoterapia: a arte da cura através da palavra — ou até da relação. Esta floresceu ao longo do século XX, desde a psicanálise até às mais recentes terapias cognitivo-comportamentais de terceira geração. Trata-se de uma formação adicional que pode ser realizada tanto por psiquiatras como por psicólogos e que está cientificamente validada como primeira linha (sim, mesmo antes dos fármacos) para a maioria das perturbações psiquiátricas comuns, como a ansiedade e a depressão. Tornou-se um complemento essencial da Psiquiatria, sendo sabido que potencia os efeitos da medicação e proporciona benefícios mais duradouros.
Atualmente, a psicoterapia ainda não faz parte obrigatória do plano de formação de um médico psiquiatra em Portugal. No entanto, a maioria opta por realizar formação nesta área, incorporando assim mais uma ferramenta no seu arsenal terapêutico.
Em suma, a Psiquiatria do século XXI rompe decisivamente com os estereótipos do passado, aliando os avanços científicos e tecnológicos à humanização do cuidado e promovendo uma abordagem biopsicossocial centrada no doente. O psiquiatra da era moderna vai além dos fármacos, recorrendo também a alterações do estilo de vida, à psicoterapia e à suplementação para um tratamento mais personalizado e colaborativo. Assim, deixa para trás o modelo paternalista e distanciado, abraçando uma prática que valoriza a partilha de decisões e a educação dos doentes, sendo, por excelência, um profissional indispensável para os desafios da saúde mental da atualidade.
Boaventura R. Afonso
