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Dos Açores ao Reino Unido: Susana Dias cria marca para mulheres de baixa estatura

© Susana Dias

Açoriana orgulhosa, Susana Dias mudou-se em 2006 para Lisboa e, mais tarde, para o Reino Unido, onde vive há uma década e consolidou uma carreira no digital e no ecommerce. Aos 39 anos, decidiu transformar uma frustração pessoal em oportunidade e criou a P’tit Affair, uma marca pensada de raiz para mulheres de estatura baixa (até 1,60m de altura) que procuram peças premium, intemporais e funcionais.

Entre a consultoria independente em Shopify, que lhe garante flexibilidade, e a gestão da sua própria marca, Susana encontra na ligação aos Açores e a Portugal a bússola que orienta as suas escolhas: desde a decisão de produzir em território português até à defesa de uma moda ética e feita para durar.

A coleção de lançamento inclui um vestido midi (disponível em duas cores), uns calções elegantes e uma t-shirt clássica. Além disso, há o Saudade Tote Bag inspirado na cultura portuguesa e que foi criado como peça funcional e inclusiva.

O BOM DIA entrevistou a empreendedora portuguesa formada em Comunicação e Marketing que transformou um desafio pessoal num projeto de moda com alma portuguesa e ambição internacional.

O que a levou ao Reino Unido? E porque escolheu este país em específico?

Vim para o Reino Unido para fazer crescer a minha carreira. Na altura procurava novas oportunidades na área digital e este país destacava-se pela dimensão do mercado, pela inovação e pela diversidade cultural. Mas a decisão não foi apenas profissional. Escolhemos o Reino Unido porque já dominávamos a língua, gostávamos da cultura (e particularmente do sentido de humor inglês) e porque fica relativamente perto de casa. Ir para o outro lado do mundo, a 12 ou mais horas de distância dos Açores e de Portugal continental, nunca foi opção. Aqui encontrei o equilíbrio entre oportunidades de carreira e proximidade às minhas raízes.

Continua a sentir uma ligação forte aos Açores e a Portugal? De que forma essa ligação se reflete no seu trabalho?

Sempre. Essa ligação é parte de quem sou. A escolha de produzir em Portugal não foi apenas ética, mas também emocional: acredito na qualidade e no saber-fazer português, e ao mesmo tempo sinto que é a minha forma de manter sempre uma ponte com as minhas origens. Até as cores escolhidas e o conceito da “Saudade Tote” refletem um pouco dessa herança. Levo os Açores e Portugal comigo em cada decisão, mesmo estando longe.

Sendo emigrante, que desafios enfrentou ao criar uma marca fora de Portugal?

Criar uma marca fora do nosso país implica sempre desafios. Felizmente, ao fim de dez anos no Reino Unido, já construí uma rede sólida no mundo do ecommerce e do Shopify, o que ajuda muito. Mas, tal como antigamente os emigrantes poupavam para fazer casa, nós optámos por apostar nos negócios. Financiarmos tudo a partir do Reino Unido é sempre um desafio, e os entraves logísticos pós-Brexit também não facilitam. Já tive ofertas de investidores, mas recusei. Sei que a primeira exigência seria deslocalizar a produção para países mais baratos e isso iria contra os meus valores. Prefiro crescer de forma mais lenta mas coerente, mantendo a integridade da marca e produzindo em Portugal com padrões éticos e qualidade garantida.

A P’tit Affair nasceu de uma frustração pessoal. Pode contar-nos como foi esse processo até transformar uma necessidade em oportunidade de negócio?

Durante anos, procurei peças que simplesmente não existiam para mulheres da minha altura. Por exemplo, passei quase 20 anos à procura de uns calções de alfaiataria com a cintura e o comprimento certos e nunca encontrei. O mesmo acontece com vestidos midi ou t-shirts versáteis: os que existem para “petite” acabam muitas vezes demasiado curtos, apertados ou mal proporcionados. Muitas marcas dizem ter linhas “petite”, mas na prática limitam-se a encolher modelos standard. Isso não resulta.  E depois há o estilo: muitas opções são desenhadas como se todas as mulheres baixas fossem adolescentes: crop tops, peças de festival. Nada pensado para mulheres maduras, com vidas ocupadas, que precisam de confiança e praticidade no dia a dia. Foi dessa frustração constante que nasceu a oportunidade. Se eu sofria com isso, sabia que havia milhares de outras mulheres na mesma situação. A P’tit Affair é a resposta: peças premium, intemporais, funcionais e desenhadas de raiz para mulheres petite.

Qual a grande diferença da P’tit Affair em relação a outras marcas “petite”?

A maior diferença é que nós não reduzimos modelos standard. Criamos as peças de raiz, com grading específico para mulheres “petite”, o que garante proporções corretas e elegância sem precisar de recorrer à costureira. Trabalhamos a pensar em mulheres maduras com vidas ocupadas, que não têm tempo para estar constantemente a fazer ajustes. Até com os nossos parceiros tivemos de educar um pouco, porque não podemos seguir as normas convencionais da indústria da moda. Podes ser um tamanho 6 ou um 16, mas a tua altura não vai mudar. O grading tem de ser feito com essas nuances em mente. Numa marca regular, um tamanho 6 até pode servir, mas exige alterações que não só custam tempo e dinheiro como muitas vezes destroem o feitio e o design da peça. E há ainda outra frustração: muitas marcas consideradas premium foram compradas por cadeias de fast fashion. Os preços não mudaram, mas a qualidade caiu drasticamente. A P’tit Affair nasce também como resposta a essa desilusão, apostando em peças realmente premium, intemporais e feitas para durar.

Porque foi importante para si produzir em Portugal, mesmo tendo criado a marca no Reino Unido?

Produzir em Portugal foi uma decisão óbvia. Por um lado, acredito na qualidade e nos padrões éticos da indústria portuguesa. Por outro, é a minha forma de manter uma ligação concreta às minhas raízes. Já tive propostas de investimento, mas recusei. Sei que a primeira exigência seria deslocalizar a produção para países mais baratos, mas à custa de condições de trabalho questionáveis. Para mim, integridade é fundamental. Prefiro crescer de forma mais lenta mas coerente, mantendo a ética e a durabilidade como princípios.

Quais têm sido as reações à primeira coleção?

Muito positivas. Há quem valorize a estética, mas o que mais se destaca é a funcionalidade. Clientes dizem que finalmente têm peças que servem sem ajustes e que facilitam a vida, são de secagem rápida, não agarram pelos de animais (algo importante para quem tem cães ou gatos!), e podem ser usadas tanto no trabalho como em momentos de lazer. Para mim, ouvir que alguém se sente mais confiante e confortável com as nossas peças é a melhor confirmação de que estamos no caminho certo.

Há alguma peça que tenha um significado especial para si? Porquê?

Para ser honesta, os calções são a minha peça favorita. Passei quase 20 anos à procura de uns calções de alfaiataria com a altura e a cintura certas e nunca encontrei. Criá-los foi uma conquista. Mas a verdade é que todas as peças têm um significado especial. O vestido midi, porque nunca encontrava um que fosse elegante e ao mesmo tempo prático. E a t-shirt, porque é versátil, ligeiramente mais comprida, confortável e não me faz sentir “a nadar” nela, como tantas outras. Cada peça nasceu de uma frustração minha e transformá-las em realidade foi incrivelmente gratificante.

Que projetos tem para o futuro da P’tit Affair?

A curto prazo, queremos consolidar a primeira coleção e lançar novas peças já em desenvolvimento: luvas forradas a caxemira para mãos pequenas, uma malha quente e outros possíveis lançamentos. Estou neste momento em Portugal para discutir os próximos passos com os nossos fornecedores. A médio prazo, planeamos abrir o mercado europeu e explorar os Estados Unidos. Adoraria ter pop-ups para criar proximidade com as clientes, mas por agora o orçamento não o permite. É um passo que ficará guardado para quando for possível fazê-lo bem.

Que mensagem gostaria de deixar às portuguesas na diáspora que também têm o sonho de empreender?

Que não esperem pela altura perfeita, porque ela nunca chega. Eu comecei com recursos muito limitados, enfrentei contratempos sérios como a perda do meu primeiro fabricante, mas segui em frente. Se acreditarem mesmo na vossa ideia, avancem. Coragem e integridade são os dois ingredientes essenciais. E sobretudo, mantenham-se fiéis aos vossos valores pois é isso que dá consistência a qualquer projeto.

Susana Dias

Do que sente mais saudades quando pensa no Faial? E como “mata” essas eventuais saudades?

Das paisagens, da calma e, claro, do mar. Não há nada que se compare ao Atlântico visto dos Açores. Para matar saudades, tento voltar sempre que posso, mas também recrio um pouco desse espírito aqui: faço longas caminhadas com o meu cão, procuro estar próxima da natureza todos os dias e até nas inspirações da marca trago esse lado de ligação à terra e ao mar.

Texto: Fabiana Bravo

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