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Deste teu amigo… emigrante

Não lhe sai do pensamento duas coisas que o amigo lhe havia dito numa daquelas férias de verão, onde tudo o que ele havia pensado e até mesmo programado para essas três semanas, aconteceu de maneira totalmente oposta ao que eram as suas expectativas de quase um ano de ansiosa espera.

A primeira foi que, “Não precisei de emigrar para ter tudo o que preciso”.

Apeteceu-lhe responder…, mas não o fez, pensou apenas para consigo, “Parabéns. Quantos poderão dizer, mesmo os que parecem ter tudo, que de facto têm tudo o que precisam.”

A outra coisa foi que, e essa magoou, se era a intenção, magoar, “Os emigrantes têm a mania…”

Os três pontinhos não são para deixar adivinhar o resto que a frase ainda continha, porque de facto não conteve mais nada do que apenas foi escrito, mas servem para deixar ao critério de quem na possibilidade de vir a ler o texto, possa deduzir, ainda que apenas em pensamento, o que a frase queria dizer, dizendo apenas o que disse.

É certo que houve um abraço a querer estabilizar saudades de uma boa meia dúzia de anos de ausência, mas fosse pelas marcas que essa ausência vai deixando de maneira invisível e que só se irão notar ou perceber quando a presença regressa, mesmo que temporariamente, ou fosse porque entretanto, nesses anos de afastamento a amizade tivesse sofrido o seu natural arrefecimento, que é apenas fruto da vida que os absorveu, nesse entretanto, a perspetiva que tinham acerca da vida e do que ela contém, também mudou.

Só assim se explica esse arrefecimento de uma amizade que outrora parecera infindável, intocável. Quer dizer… não que não tivessem tido as suas divergências no passado, mas nenhuma dessas divergências teria magoado tanto e tão profundamente como esta, talvez porque desta vez havia um espaço de ausência de uma boa meia dúzia de anos, e um espaço curtíssimo entre o reencontro e as frases ditas quase de maneira maliciosa.

Quando regressou ao estrangeiro levou consigo as frases que não esquecem, não porque magoaram, mas sim por tristeza, desilusão, e quanto à amizade, manteve-a, nem que fosse apenas e só no seu coração, porque lembrou-se de Vinícius de Moraes na quadra, “Enfim, depois de tanto erro passado – tantas retaliações, tanto perigo – eis que ressurge noutro o velho amigo – nunca perdido, sempre reencontrado.

Mesmo assim foi moendo na sua cabeça aquele sentimento que por ser novo, pois estava entre uma espécie de limbo entre uma amizade que afinal, talvez nunca tivesse sido tão intensa como ambos o chegaram a julgar, e uma ofensa que apesar de tudo, declarada perderia força por falta de fundamento.

Foi então que decidiu escrever uma carta, que assinaria como… ”Do teu amigo emigrante”.

A carta, não lhe pegamos pelo princípio. Não é preciso.

…e quando te digo que a vida de emigrante é vida dura e muito sofrida, meramente naqueles primeiros tempos de adaptação a uma nova realidade, não quero, como nunca quis, menosprezar ou diminuir os teus esforços, os teus sacrifícios e a tua não menos dolorosa e sofrida vida, tu que ficaste por terras Lusas, mas quero que tenhas em conta que apesar do respeito e compreensão que tenho pelos teus sacrifícios, gostaria de te lembrar que em qualquer parte do mundo onde se vá, todos teremos de lutar, todos teremos que fazer sacrifícios para que, com o tempo e o resultado da luta possamos colher os frutos que semeamos.

Mas lembrar-te-ia apenas que, se em matéria de esforço e labuta estamos idênticos, o que nos diferencia a nós emigrantes é a saudade que por vezes, em momentos de maior angústia, nos corrói por dentro.

As saudades que temos de todos vocês, das vossas vozes, das gargalhadas, da boa disposição, das euforias dos momentos de confraternização, e até mesmo os momentos de discórdia, que os tivemos algumas vezes em discussões tão banais como o futebol ou a política, política essa da qual nenhum de nós alguma vez foi um grande aficionado, e outras ninharias que sempre acabamos por trazer à razão e ao entendimento, às vezes na taberna do senhor António enquanto no assador de barro um chouriço estalava à medida que a gordura que afinal era de onde lhe vinha o sabor, ia pingando misturando-se com o álcool a arder, ou mesmo sentados no jardim que fica defronte à camara municipal.

Sim, e porque falo nesse jardim, aproveito o ensejo para te falar de uma outra saudade de emigrante, e que é o cheiro único e imensurável dessa relva onde em noites de amena cavaqueira nos sentávamos a incomodar e a abafar os cantares dos grilos, que sabíamos estarem algures por ali também eles no seu dialeto de grilos, quiçá, tal como nós, em animadas conversas de temas que a grilos dizem respeito. É que…sabes, aqui, a mais de dois mil e quinhentos quilómetros desse local de que te falo, há uma nostalgia que advém dessa saudade intensa, e também há jardins, também há relva, também há grilos e cigarras e formigas silenciosas, atarefadas e trabalhadoras, mas o cheiro único e imensurável de que te falei, não é o mesmo, e por isso meu amigo eu te digo que uma vez mais estás em vantagem. Que estás em vantagem nas coisas mais simples da vida, coisas essas que eu cheguei a dar por garantidas e hoje ao pensar nelas, ao sentir-lhes a falta, há um bater no peito bem mais acelerado, um formigueiro na barriga, e uma tristeza que só não se transforma em lágrimas porque até mesmo essas, com o passar do tempo e as vicissitudes da vida, também elas vão secando.

Talvez não saibas, mas os princípios de um emigrante são preenchidos por um constante sobressalto, às vezes uma espécie de medo que se vai disfarçando com sorrisos forçados, com uma bravura e uma força que não é se não um instinto de sobrevivência.

Sabes, sobressalto quando vais começar um novo trabalho, pois por essa razão emigraste, para tentares dar o teu corpo à luta na esperança de uma vida melhor, e à medida que cada passo que dás e que te encurta a distância entre o trabalho que estás para começar, o teu coração pula de tal maneira ansioso que até chegas a ter medo que quem te circunda, quando por ti passa, o possa ouvir, pois sabes que se está a chegar o momento de enfrentares pessoas, com quem a partir de agora vais ter de conviver por razões profissionais e elas não sabem uma palavra da tua língua mãe, e tu, da deles sabes apenas umas quantas palavras que não chegam a ser suficientes para formar uma frase.

Hás de conseguir. Sabes que vai ser uma luta, mas, dizes a ti mesmo mais vezes do que aquelas em que acreditas, que hás de conseguir.

Sobressalto quanto toca o telefone e constatas que a chamada é de Portugal e antes de qualquer sentimento de alívio ou alegria, o primeiro que te assola é o medo. O medo de más noticias, o medo de que te digam, como a mim me disseram…” O teu pai foi-se embora.” E o coração bate, e o coração pula, e o coração sofre e também ele chora desesperado.

É a vida, dizem. Não, não é. É a morte.

Mesmo assim, apraz-me também dizer-te, ou se quiseres, advertir-te, que não acredites em tudo o que ouves da parte de alguns emigrantes, especialmente daqueles que vêm à terra tentar mostrar uma vida que eles dizem viver lá nos quintos da Gronelândia, vida essa que só lhes existe numa ilusão que eles mesmo criam, nos dias em que lhes duram as férias e as vaidades, e depois, passado o dia e passada a romaria, regressam à dura realidade porque, como já te disse, em qualquer parte do mundo, a vida não é facilitada só porque se salta do ramo de uma árvore para a outra, por muito mais alto que esteja esse ramo para onde se saltou.

Em qualquer parte do mundo é preciso trabalhar e fazer sacrifícios e tomar opções de vida, para que essa vida possa ser vivida de maneira decente e por vezes traga as suas compensações também. E isso é regra de quem emigra, mas também de quem por terras Lusas adapta os mesmos princípios.

Uma vez mais me socorro daquilo que escreveu Vinícius de Moraes, “Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde, e sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos…”

Quase sempre esses são os que dão mau nome à nossa raça Lusitânia. E sempre, esses são os de quem nada podes esperar, porque o mau caracter não os abandona só porque mudaram de país. São ciumentos, são falsos, invejosos, traiçoeiros, mesquinhos, e o pior disso tudo é que são tudo isso a maior parte das vezes com um sorriso de lobo em pele de cordeiro, nos lábios. São os que andam de bonde e no percurso da viagem sonham com longos passeios de automóvel…!

Mas também há os que nunca esqueceram os princípios difíceis e por vezes temerosos, e mantêm a sua humildade e bom caracter e deles se pode esperar uma amizade genuína. Vivem a vida na sua realidade e por isso ela, a vida, lhes vai sorrindo porque arregaçam as mangas e foram à luta São esses os verdadeiros emigrantes, os que nos dão o bom nome.

Fico feliz porque não precisaste de sair de Portugal para que a vida te sorrisse. Para que, mesmo como tu o afirmaste, teres tudo o que precisas. Ninguém tem tudo o que precisa, mas ter o essencial, e acima de tudo ter o mais básico, como um coração justo e bondoso, já é ter muito. Por isso te digo que quem tem rancor nas palavras que diz e no que deseja, não tem paz e não tendo paz, por muito que tenha ou que pensa que tem, não tem nada.

E quanto aos emigrantes que têm a mania…esses também teriam essa mania a que te referes, mesmo que não tivessem emigrado, porque esses…viajam em carruagens enquanto sonham com longos passeios de automóvel.

Assinado, Este teu amigo… emigrante.

Aurélio dos Santos Florindo

 

(Retalhos do Quotidiano, páginas 104 – 105 – 106)

António Magalhães

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.