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Derrubem a parede

Roger Waters, cofundador, baixista, autor e compositor de uma das melhores bandas de rock progressivo do mundo, na minha opinião a melhor, os Pink Floyd, manifestou a intenção de realizar um concerto do duplo álbum “The Wall”, entre a fronteira do México e os Estados Unidos, como forma de contestação à polemica ideia de Donald Trump em construir um muro que separe os dois países.

“The Wall” é o décimo primeiro álbum de estúdio dos Pink Floyd e é considerado um dos melhores álbuns musicais de sempre, superado apenas por aquele que é classificado como uma autêntica obra-prima, não só da banda bem como do género musical em todo mundo, o álbum “The Dark Side of The Moon”.

“The Wall” foi posto em circulação a 30 de Novembro de 1979 atingindo de imediato a popularidade e o sucesso indiscutivelmente merecido.

A 21 de Julho de 1990 Roger Waters realizou na capital da Alemanha um megaconcerto para celebrar e assinalar a data da queda do muro de Berlim, convidando para o evento uma extensa lista de músicos que participaram no espetáculo, tal como, Scorpions, Cyndi Lauper, Sinéad O’Connor, The Band, The Hooters, Joni Mitchel, Bryan Adams, Van Morrison, Paul Carrack e o ator Britânico Albert Finney que interpretou o juiz, na música “The Trial”.

Vinte e nove anos depois desse memorável concerto que assinalou o fim de uma era negra entre uma Alemanha dividida, o conceito da construção de um muro com fins idênticos e fundamentações absurdas no sentido de justificar a sua construção, anda por aí a pairar no ar como um espectro do muro outrora derrubado, como se a luta, o sofrimento, a dor e até a morte, causadas por esse muro, finalmente derrubado, não fossem suficiente lição para aprender com os erros do passado.

O duplo álbum “The Wall”, escrito na sua maioria com as letras de Roger Waters, de certa maneira representa uma série de medos, angústias e momentos depressivos, que vão surgindo ao longo da vida, nas mais variadas formas físicas e emocionais, levando por vezes a uma quase insanidade mental, onde por consequência se constroem muros em volta das emoções e estados psicológicos no sentido de o individuo se proteger a si mesmo e à sua vulnerabilidade perante um mundo cruel. Mas…nem sempre um muro, uma parede, (The Wall) representa um ato de proteção de, ou em relação a algo. A maior parte das vezes, os muros, a parede, representa isolamento, discriminação, o ódio, solidão, injustiça.

Quando em Julho de 1990 Roger Waters realizou o megaconcerto “The Wall” para assinalar a celebração da queda do muro de Berlim, fez-se ao mesmo tempo uma justa e merecida homenagem às centenas de milhares de pessoas que perderam a vida, outras que viram a vida dos seus entes queridos perder-se, como consequência nefasta daquilo que durante anos a porcaria do muro representou.

Mais do que assinalar uma vitória em relação a tudo o que de mal o muro representou desde a sua construção, foi acima de tudo o acordar de consciências e mantê-las despertas para que não se volte a pecar com os mesmos erros. Vinte e nove anos depois, essas consciências parecem querer voltar a um estado de sonolência que ignora por completo todo o sofrimento, lágrimas e sangue, consequência de erros dos quais o coletivo da humanidade deveria ter sempre presente na memória e aprendido as suas lições.

Grande parte do planeta está a ser governado por um bando de idiotas que põem em risco direitos e liberdades outrora conquistados com o sofrimento, as lágrimas e a dor de muitos que deram a vida pela nossa liberdade de hoje em dia.

Eric Fletcher Waters, (pai de Roger Waters) foi um dos muitos soldados da segunda guerra mundial, que perdeu a vida em detrimento dessas garantias que assumimos como sendo certas e definitivas em relação às liberdades e direitos que hoje temos. Mas…nunca como hoje essas conquistas, muitas arrancadas a ferro e fogo, estiveram tão ameaçadas com indivíduos, governantes, que estão à frente dos destinos de um país e de um povo, defendendo políticas e ideologias completamente opostas às causas e às conquistas pelas quais morreu Eric Fletcher Waters e muitos milhares de outros soldados e civis, bem como as vítimas de uma ainda recente ditadura militar no Brasil, (1964-1985) e todos aqueles que lutaram e lutam, sofreram e sofrem, por adquirir liberdades e direitos que deveriam ser assegurados a todo e qualquer cidadão do mundo.

A eventual realização do concerto “The Wall”, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, a ser concretizada poderá uma vez mais produzir um efeito de “Acordar consciências”, não só para lembrar a Donald Trump e à sua administração, que não se resolvem problemas nem se arranjam soluções construindo muros e isolando pessoas, assim como o absurdo das suas ideias, politicas e ideologias, que na maior parte das vezes são uma ameaça à democracia e mesmo a segurança e preservação do próprio planeta, e ao mesmo tempo uma oportunidade de refletir no rumo que as grandes conquistas da humanidade no que diz respeito aos direitos fundamentais de cada cidadão em relação à sua liberdade e a liberdade de todos sem exceção, não importando a sua crença religiosa, falta de crença, raça, ou orientação sexual, continuem a ser direitos fundamentais no sentido de criar e facultar a cada cidadão as mesmas oportunidades e acima de tudo, o respeito mútuo em cada ser humano.

O mundo precisa refletir seriamente no que se conquistou ao longo dos anos, e no que está em risco de sofrer um retrocesso como se se fosse voltar à estaca zero.

Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia, Rodrigo Duterte nas Filipinas, Viktor Orbán na Hungria, Mateusz Morawiecki na Polónia, entre outros, defendem politicas e ideologias absolutamente contrárias a todas as conquistas conseguidas ao longo dos anos com o sofrimento, a maior parte das vezes atroz, de um povo que pagou muitas vezes com a própria vida, a liberdade e os direitos de cada cidadão, dos quais usufruímos nos dias de hoje.

Até que ponto estão garantidas as liberdades democráticas e os direitos fundamentais de cada cidadão, com estes energúmenos e as suas políticas extremas, num disfarce populista, onde as promessas para a resolução dos problemas que afligem o mundo, são precisamente o retrocesso de tudo que até hoje se conseguiu.

No entanto, nenhum deles foi posto à frente dos destinos dos países que representam, só por vontade própria. Uma maioria da população, com mais ou menos margem de votos, colocou esta gente, as suas políticas e os perigos que arrastam, no poder.

Que espécie de mundo queremos nós? Que mundo e que heranças queremos deixar aos filhos dos nossos filhos?

Roger Waters acredita que qualquer músico influente tem o direito, e ao mesmo tempo uma quase obrigação, de usar a sua influência adquirida pela sua genialidade, no sentido de ajudar causas que afetam milhares de pessoas, assinalando e dando visibilidade ao mundo, agitando a consciência coletiva no sentido de evitar que certos erros do passado, especialmente aqueles que tanto sofrimento causaram, se voltem a repetir.

Tear Down The Wall.

António Magalhães