De que está à procura ?

alemanha
Lisboa
Porto
Berlim, Alemanha
Colunistas

Conhecer a nossa gente

Estava num estabelecimento comercial, da Avenida José Peixinho, em Aveiro, a tomar o cafezinho matinal, quando escutei dois sujeitos: um, de cabelos brancos e rosto sulcado pela goiva do tempo; outro, ainda jovem, com pouco mais de vinte anos, de calças de ganga azul, e t-shirt da mesma cor, ostentando frase, em língua desconhecida para mim.

Gosto de ouvir o povo: as conversas nos transportes públicos; os motoristas de táxi; os operários; as vendedeiras de feira… Gosto, porque só, por eles, se pode compreender a sociedade em que se está inserido.

A mass-media é o reflexo, o espelho da coletividade. Mas, quantas vezes, não é a voz das elites?

Quem quer conhecer a verdade, ouça o povo simples: o pai e a mãe de família.

Dizia o mais idoso para o jovem:

– Ouvi um comentarista, na TV, dizer que o acordo da Europa com o Canadá, é benéfico para nós, já que os canadianos ganham, em média, o dobro dos portugueses… Lembrei-me de Salazar e dos seus discursos…”

Nesse momento o jovem interrompeu, para recordar os vencimentos dos gestores.

– “É uma pouca vergonha!” – Continuou o velho. – “Dizem: se não forem bem pagos, emigram. Pensando assim, os trabalhadores deviam ganhar bem, para que os melhores não fujam… Chego a pensar, que a elite, que nos governa, julga que quem não se expatria, é burro…”

Como o jovem argumentasse que devia haver patriotismo, o senhor de cabelos brancos, retorquiu:

– “Isso de patriotismo, só encontro no povo humilde, agarrado à sua terra e à sua gente. Os outros, só pensam na carreira e no dinheiro. Sempre foi assim, e assim será. No meu tempo, quando era moço, como tu, havia muitos que iam a salto para França. Uns, procuravam vida melhor; outros, para não irem para a guerra. Nunca quis ser desertor… Parecia-me atitude indigna e vergonhosa. Fui. Alguns ficaram por lá…; outros, vieram doentes e mutilados. A guerra acabou. Os que cumpriram o dever, nada ganharam; dos que fugiram, houve quem fosse considerado herói… Ser herói ou traidor, está no tempo em que se vive. O herói, pode ser traidor, e o traidor herói, depende da época, do lugar e da sociedade que se insere.”

A conversa estava interessante. Apurei o ouvido, para melhor entender, já que começaram a falar a meia-voz.

Comentaram as pensões; o aumento dos produtos agrícolas; o facto do IVA descer para a restauração; o desemprego, que desce, porque todos os dias se emigra; a necessidade de braços para a lavoura; e despediram-se, afectuosamente, apertando as mãos com um “ até amanhã”.

E fiquei a pensar;: quem quer conhecer verdadeiramente a necessidade do povo: seus problemas, suas ambições, tem que viver no meio dele e escutá-lo

Como se pode conhecer a nossa colectividade, quando se frequenta restaurantes elegantes; e se convive com gente da elite, que aufere bons vencimentos e se passa o tempo em bons hotéis, a viajar pelo mundo?

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.