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Carlos Magno: “Muitas vezes acho que o melhor de Portugal está fora de Portugal”

© BOM DIA

O jornalista e antigo presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Carlos Magno, foi um dos oradores da conferência PORTUGAL+, organizada anualmente pelo jornal BOM DIA, que este ano teve lugar a 11 de outubro, na Sala José Ensch da Abadia de Neumünster, no Luxemburgo.

Num discurso intenso e reflexivo sobre jornalismo e literatura, Carlos Magno abordou o papel do jornalismo, a transformação da comunicação social num espetáculo e a importância da língua portuguesa como património comum.

“Nas ditaduras faz-se notícia, em primeiro lugar, daquilo que o poder e o Estado mandam. (…) O jornalista precisa da realidade, ao contrário do escritor e do ficcionista. Nós, os jornalistas, sem realidade não conseguimos viver porque aquilo que fazemos é intermediar uma relação entre os factos, transformá-los em notícias e transformar a realidade em atualidade”, afirmou, sublinhando que o compromisso do jornalista é procurar a verdade com honestidade e rigor.

O jornalista recordou que o jornalismo deve libertar-se do seu lado mais “espetacular” e regressar à sua essência: as notícias.

“Hoje temos um problema: o jornalismo transformou-se num espetáculo” – e é preciso voltar à realidade, defendeu, comparando rubricas mediáticas como editoriais, entrevistas ou debates televisivos a pequenos sketches ou happenings que afastam a profissão da sua função essencial de informar.

Falando para uma plateia composta por muitos portugueses e lusodescendentes, Carlos Magno refletiu também sobre o valor da língua portuguesa, que descreveu como “a mais pura das línguas impuras”.

“O português é uma língua feita de várias línguas; tem uma raiz latina, naturalmente, mas depois foi sendo invadida ou contaminada – sem qualquer sentido pejorativo – por outras línguas com que nos cruzámos”, disse, lamentando que, em Portugal, o idioma esteja a perder espaço face ao inglês.

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Contou ainda um episódio com a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, que, em tom crítico, lhe disse: “Carlos, eu não vou mandar os meus estudantes para Lisboa estudar inglês. Para isso, mando-os para Nova Iorque ou para Londres.”

Carlos Magno defendeu que o grande exemplo de preservação da língua portuguesa está hoje fora de Portugal, em comunidades como a do Luxemburgo, onde a ligação à cultura e às raízes se mantém viva.

“Basta andar pelas ruas e basta estar nesta sala. A preservação da língua faz-se em sítios onde se procura uma relação com a velha literatura portuguesa e com aquilo que se vai produzindo para lá de algumas modernices ou modernismos”, afirmou.

“Olhando para a paisagem, olhando para aquilo que se faz no BOM DIA e o que se faz nas comunidades portuguesas, acho que o que nos vai salvar são aqueles que preservam histórias, lendas, personagens, situações, etc., que os ditos escritores ‘modernaços’ já não querem ouvir”, acrescentou.

O jornalista deixou ainda uma proposta: que o Luxemburgo acolha residências artísticas para escritores portugueses, de modo a aproximar o país da produção literária contemporânea e permitir que os autores compreendam melhor a vivência das comunidades.

“Era preciso que a comunidade do Luxemburgo acolhesse aqui temporariamente residências artísticas de escritores que viessem para aqui durante algum tempo perceber como funciona a vossa comunidade, onde estão as vossas grandes figuras, que história cada uma das vossas famílias transporta e como é que tudo isto pode ser perservado para o futuro.”, explica.

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“Tal como diz o Presidente Marcelo, muitas vezes acho que o melhor de Portugal está fora de Portugal. Se não soubermos aproveitar esse manancial e essa cultura, seremos diluídos numa cultura global cada vez menos interessante”, concluiu.

Veja, em baixo, o vídeo com a intervenção completa de Carlos Magno.

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