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Cannes Classics celebra a memória do cinema

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Criada há quase vinte anos para aproximar o cinema contemporâneo do seu próprio património, a secção Cannes Classics volta em 2026 a afirmar‑se como o coração cinéfilo do Festival de Cannes.

A seleção, integrada na programação oficial, apresenta este ano 21 longas-metragens, 3 curtas e 6 documentários, entre cópias restauradas e novas obras dedicadas à história da sétima arte. As sessões decorrem na sala Buñuel, na sala Agnès Varda e no Cinéma de la Plage.

A edição de 2026 é dedicada à memória do lendário diretor artístico Dean Tavoularis, colaborador de Francis Ford Coppola em filmes como “Apocalypse Now” ou “The Godfather Part II”, sublinhando logo à partida a importância da dimensão visual e artesanal na história do cinema.

Pela primeira vez, Cannes Classics destaca de forma especial duas obras recentes, ambas centradas em figuras femininas que atravessam o século XX. Em “L’Âge d’Or”, primeiro filme de ficção de Bérenger Thouin, acompanhamos a vida extraordinária de Jeanne Lavaur, dos anos loucos de Paris ao Brasil, dividida entre dois amores – um conde e uma revolucionária italiana. O filme mistura recriação histórica com o uso inventivo de imagens de arquivo, numa tentativa declarada de “reinventar” o filme de época.

O documentário “Une Vie Manifeste”, de Jean-Gabriel Périot, recupera a figura de Michèle Firk: crítica de cinema na revista Positif, aspirante a realizadora e militante revolucionária, que fez da justiça e da liberdade o eixo da sua vida. O filme conta a história de uma mulher que recusou as convenções do seu tempo, entre a cinefilia e o compromisso político.

Num programa especial de curtas-metragens recentes, Cannes Classics recebe “Torino Shadow”, de Jia Zhang-Ke, sobre uma mulher que viaja da China para Turim e reencontra a si própria através do cinema; “Goodnight Lamby”, do artista visual Dustin Yellin, uma fábula onírica em animação produzida por Darren Aronofsky; e “Playground”, do iraniano Amirhossein Shojaei, sobre um pai que abandona a filha num parque infantil e regressa para encontrar uma criança igual que já não o reconhece.

A vertente documental da seleção faz um verdadeiro inventário da memória cinéfila. Mark Cousins apresenta “The Story of Documentary Film (The 1970s)”, novo capítulo da sua leitura panorâmica da história do documentário. Bruce Dern é retratado em “Dernsie: The Amazing Life of Bruce Dern”, de Mike Mendez, que explora a carreira e a relação do ator com a filha, Laura Dern.

David Lean, mestre do épico, ganha um retrato aprofundado em “Maverick: The Epic Adventures of David Lean”, narrado por Cate Blanchett e com depoimentos de realizadores como Coppola, Villeneuve, Wes Anderson ou Alfonso Cuarón. Vittorio De Sica é homenageado em “Vittorio De Sica – La Vita in Scena”, de Francesco Zippel, enquanto Michel Denisot assina, com Camille Bruere e Julie Lazare, “Mon Coluche à Moi”, memória pessoal do humorista Coluche. Por fim, “Nostalgia for the Future”, de Brecht Debackere, mergulha no universo enigmático de Chris Marker, guiado pela voz de Charlotte Rampling.

Como é tradição, Cannes Classics é também o lugar onde alguns dos grandes títulos da história do cinema regressam ao grande ecrã em cópias restauradas. Em pré-abertura do festival será apresentado “O Labirinto do Fauno”, de Guillermo del Toro, em versão 4K supervisionada pelo próprio realizador.

Entre os destaques estão ainda um programa dedicado a Artavazd Pelechian, o clássico político “Moonlighting”, de Jerzy Skolimowski, “Adieu ma Concubine”, de Chen Kaige, “Man of Iron”, de Andrzej Wajda, “The Devils”, de Ken Russell, “La Ciociara”, de Vittorio De Sica, “Sanhiro Sugata”, de Akira Kurosawa, “Tilaï”, de Idrissa Ouedraogo, “The Stranger”, de Orson Welles, entre muitos outros títulos provenientes de cinematecas e arquivos de todo o mundo.

Mais do que uma vitrine de restaurações, Cannes Classics afirma-se como um ponto de encontro entre quem preserva, restaura, distribui e vê cinema: cinematecas, laboratórios, festivais, instituições públicas, investigadores, estudantes e público. Em 2026, a seleção volta a cumprir a missão para que foi criada: usar o prestígio do maior festival do mundo para dar nova vida às grandes obras do passado e reforçar o elo entre a cinefilia de hoje e a memória do cinema.

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