Calçada portuguesa e silêncio invisível: Caminhos de beleza, risco e isolamento
Há algo de profundamente simbólico na calçada portuguesa. É bonita, identitária, quase poética. Desenha cidades, conta histórias e conduz-nos por ruas que convidam ao encontro. Mas quem nela caminha conhece também o outro lado: quando chove, torna-se traiçoeira, escorregadia, quase um aviso silencioso — “fica em casa”.
Esta dualidade serve de metáfora poderosa para um fenómeno igualmente invisível e contraditório: a perda auditiva e o seu papel no isolamento social em Portugal.
Tal como a calçada, a vida social oferece caminhos de encontro, partilha e pertença. No entanto, para centenas de milhares — ou mesmo milhões — de portugueses, esses caminhos tornaram-se difíceis de percorrer. Não por falta de vontade, mas por obstáculos subtis, silenciosos e muitas vezes ignorados.
Estima-se que cerca de 10% da população portuguesa tenha dificuldades auditivas, o que corresponde a aproximadamente um milhão de pessoas. Mas este número esconde mais do que revela. Quando incluímos perdas ligeiras, não diagnosticadas ou não assumidas, o total poderá aproximar-se dos 1,5 a 2 milhões — ou seja, até um em cada cinco portugueses.
E, no entanto, quantos destes aparecem nas estatísticas? Quantos são considerados quando se fala de inclusão, acessibilidade ou isolamento?
A imagem pública da surdez continua muitas vezes limitada a casos de surdez profunda ou à comunidade utilizadora de Língua Gestual Portuguesa. Esse grupo é fundamental e deve ser reconhecido. Mas representa apenas uma pequena parte da realidade. A grande maioria das pessoas com perda auditiva vive numa zona cinzenta: ouvem, mas não o suficiente; participam, mas com esforço; estão presentes, mas muitas vezes desligadas.
É aqui que o problema se torna verdadeiramente insidioso.
A perda auditiva raramente surge de forma abrupta. Instala-se lentamente, quase imperceptível. Primeiro, são palavras que se perdem numa conversa. Depois, o cansaço de tentar acompanhar. Mais tarde, a frustração de pedir para repetir — outra vez. E, por fim, a escolha silenciosa: falar menos, sair menos, evitar.
Tal como na calçada molhada, o risco não está apenas na queda, mas na antecipação dela.
Muitas pessoas começam a evitar situações sociais não porque não queiram estar com os outros, mas porque essas situações se tornaram exigentes, desconfortáveis ou até humilhantes. Restaurantes barulhentos, jantares em grupo, reuniões familiares — tudo aquilo que antes era prazeroso transforma-se num terreno incerto.
E depois há os outros fatores que agravam este cenário.
Há quem não queira reconhecer o problema, por estigma ou negação. Há quem não possa tratar, devido ao custo dos aparelhos auditivos, ainda hoje inacessíveis para muitos. E há ainda quem nem saiba que tem perda auditiva, simplesmente porque nunca foi diagnosticado.
O resultado é uma população vasta e invisível: pessoas que não são consideradas “surdas”, mas que vivem, na prática, com limitações reais na comunicação.
Se cruzarmos estes dados, a conclusão é inquietante. Dos cerca de 1,5 a 2 milhões de portugueses com algum grau de perda auditiva, uma grande maioria não utiliza qualquer tipo de apoio. Isso significa que centenas de milhares — possivelmente entre 600 mil e 800 mil — vivem com dificuldades auditivas relevantes sem suporte, sem reconhecimento e sem representação estatística adequada.
E estas são precisamente as pessoas mais vulneráveis ao isolamento social.
Porque continuam a tentar participar, mas com um custo crescente. Porque não têm respostas adaptadas à sua realidade. Porque não cabem nas categorias tradicionais de deficiência, nem nas políticas públicas desenhadas para elas.
Tal como a calçada portuguesa, a vida social permanece bela, mas difícil de atravessar.
Importa, por isso, mudar o olhar.
Reconhecer que a perda auditiva não é um fenómeno marginal, mas estrutural. Que não se limita a casos extremos, mas atravessa toda a sociedade. E que o isolamento social não é apenas uma questão de escolhas individuais ou circunstâncias económicas, mas também de barreiras sensoriais invisíveis.
Talvez seja tempo de tornar estes caminhos mais seguros.
Investir em rastreios auditivos regulares, especialmente na população adulta e idosa. Melhorar o acesso a soluções auditivas. Reduzir o estigma. E, sobretudo, incluir esta realidade no debate público sobre solidão e coesão social.
Porque, no fundo, todos queremos continuar a caminhar.
A diferença está em saber se o fazemos com confiança — ou com medo de escorregar.
António Ricardo Antunes Miranda
