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Bilinguismo: Um capital cultural que amplia a consciência

Numa sociedade cada vez mais globalizada e intercultural, o bilinguismo assume uma importância crescente para as famílias, as escolas e a sociedade em geral. Enquanto pessoa que adquiriu várias línguas, contactou com diferentes culturas e leciona há décadas no ensino da língua materna, procuro neste texto articular a experiência pessoal com o conhecimento científico, oferecendo uma orientação prática a pais, educadores e decisores políticos.

O que é o bilinguismo?

Não existe uma definição universalmente aceite de bilinguismo, já que diferentes abordagens utilizam critérios distintos. De forma geral, o bilinguismo pode ser entendido como a capacidade de comunicar fluentemente, oralmente e por escrito, em duas línguas, nas diversas situações da vida.

Importa referir que a maioria das pessoas bilingues possui uma língua dominante e outra menos dominante. Uma competência absolutamente equilibrada entre ambas é relativamente rara.

Distingue-se entre:

  • bilinguismo simultâneo, quando ambas as línguas são adquiridas antes dos três anos;
  • bilinguismo sucessivo, quando a segunda língua é adquirida após essa idade;
  • bilinguismo aditivo e subtrativo, conforme a segunda língua reforça ou enfraquece a primeira.

A investigação demonstra que um contacto precoce com uma segunda língua é particularmente vantajoso. Quanto mais cedo a criança é exposta à língua, mais naturalmente esta será vivida como meio de comunicação e não apenas como objeto de aprendizagem.

A importância das experiências autênticas

Os estudos nas áreas da linguística e da pedagogia mostram que a língua não se aprende de forma isolada, mas através de contextos reais e significativos. As experiências autênticas são fundamentais para que a criança interiorize verdadeiramente a língua.

As crianças aprendem com todos os sentidos. A aquisição linguística torna-se mais eficaz em situações emocionalmente relevantes: brincar com outras crianças, ouvir histórias antes de dormir, cozinhar em família, conviver com os avós ou passar férias no país da língua menos dominante.

Nesses momentos, a língua deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma ferramenta viva de comunicação.

A investigação demonstra também que experiências contextualizadas favorecem o processamento neuronal e a memorização. Crianças que utilizam a língua em interações reais desenvolvem um vocabulário mais rico e uma sensibilidade linguística mais profunda.

Daqui resultam consequências práticas importantes:

  • férias no país da língua minoritária;
  • contacto regular com falantes nativos;
  • canções, histórias e jogos;
  • dramatizações e atividades culturais.

Tudo isto não deve ser visto como complemento, mas como parte essencial de uma educação bilingue bem-sucedida.

A experiência mostra que, durante estadias prolongadas em Portugal, a língua menos dominante tende naturalmente a tornar-se a principal língua de comunicação da criança.

Também os modelos de referência desempenham um papel importante. Professores, músicos, colegas ou outras figuras que utilizem a língua de forma viva ajudam a criança a vê-la como algo valioso e desejável.

Estado emocional e carga mental

A dimensão emocional da educação bilingue é frequentemente subestimada. A língua não é apenas um fenómeno cognitivo; é também profundamente afetiva.

A língua materna é frequentemente a língua das emoções, dos afetos e da identidade. Em momentos de forte emoção, muitas pessoas regressam espontaneamente à sua língua dominante. Isso é natural e não deve ser interpretado como um fracasso.

A psicologia do desenvolvimento alerta para um ponto essencial: a estabilidade emocional da criança nunca deve ser comprometida pelo processo de aprendizagem linguística.

Pressão excessiva, correções constantes, imposição rígida de uma língua ou expectativas perfeccionistas podem provocar:

  • ansiedade;
  • medo de falar;
  • rejeição da língua menos dominante.

A educação bilingue deve decorrer num ambiente afetivo, seguro e sem medo do erro.

Também se torna problemático quando a língua é associada a conflitos familiares ou experiências negativas. Muitas vezes, a recusa de uma língua tem origem emocional e não linguística.

Os estudos indicam ainda que uma sobrecarga cognitiva — como a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita em várias línguas numa idade muito precoce — pode ser contraproducente.

Por isso, recomenda-se frequentemente iniciar a alfabetização na língua do meio envolvente e introduzir a segunda língua de forma gradual, com algum intervalo temporal.

O papel da família e do meio social

A família constitui o principal contexto da educação bilingue.

Um dos métodos mais eficazes é o princípio “uma pessoa, uma língua”, em que cada progenitor comunica consistentemente na sua língua materna. Esta abordagem favorece a organização linguística da criança e reforça a ligação afetiva a cada língua.

É importante que ambas as línguas e culturas sejam valorizadas no ambiente familiar. Nenhuma deve estar associada apenas à obrigação ou apenas ao prazer.

O meio social — jardim de infância, escola e grupo de pares — desempenha igualmente um papel determinante.

Entre os seis e os doze anos, a língua menos dominante encontra-se particularmente vulnerável devido à influência da escola e dos amigos.

Por essa razão, podem ser importantes:

  • estadias regulares no país da língua minoritária;
  • ensino da língua materna;
  • escolas ou instituições bilingues.

Resultados científicos e conclusão

Ao contrário do que durante muito tempo se acreditou, a investigação atual demonstra claramente que o bilinguismo não prejudica o desenvolvimento cognitivo nem linguístico.

Pelo contrário, crianças bilingues tendem a desenvolver:

  • maior consciência linguística;
  • maior facilidade na aprendizagem de outras línguas;
  • maior flexibilidade cognitiva;
  • maior abertura cultural e tolerância.

Os benefícios tornam-se mais evidentes quando:

  • ambas as línguas são valorizadas;
  • o ambiente emocional é seguro;
  • existem experiências autênticas com ambas as línguas.

A língua deve ser vivida como enriquecimento e não como obrigação.

Em síntese, as crianças bilingues crescem com uma consciência ampliada. Desde cedo compreendem que existem diferentes formas de interpretar o mundo e que é possível pertencer simultaneamente a mais do que um universo cultural.

Trata-se de um património valioso que merece ser preservado pelas famílias e pela sociedade.

António da Cunha Duarte Justo

NB: Este artigo resume uma palestra apresentada em 2006 e posteriormente atualizada. Quem desejar aprofundar o tema do ensino bilingue pode consultar:

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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