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“Berta Isla” de Javier Marías

Ficha técnica

Título – Berta Isla

Autor – Javier Marías

Editora – Alfaguara

Páginas – 496
Opinião

         “Quanto daquilo que nos dizem pode ser ou não ser, pode ser o mais decisivo e o mais indiferente, o mais inócuo e o mais crucial, aquilo que afecta a nossa existência e aquilo que nem sequer a toca de raspão.” (pág. 191)

        Nunca é fácil escrever sobre uma obra de Javier Marías e esta não será exceção.

         Se consultarem a banda lateral do blogue, dar-se-ão conta de que esta foi a quinta obra que li deste primoroso autor (ouvi este adjetivo ontem, num vídeo de um booktuber que sigo e acho que espelha na perfeição a escrita de Marías). Ter lido todas essas obras dá-me algum traquejo para estruturar esta opinião e destacar aquilo que, sem dúvida, as caracteriza a todas – o estilo do autor é intricado, denso, a ação perde o protagonismo em prol de um discurso repleto de pensamentos, divagações e de citações que ilustram o vastíssimo conhecimento que Marías tem da literatura mais clássica.

         Outro aspeto que está presente em todas as obras que já li deste autor espanhol é o facto de todas as premissas arrancarem com um acontecimento emocionante e arrebatador que prende a atenção de qualquer leitor. Contudo, sei, tenho consciência de que não é qualquer leitor que seguirá com a leitura mal se aperceba de que, por muitos laivos de thriller ou suspense que tenha esse acontecimento que abre a narrativa, o que se lhe seguirá é tudo menos isso. Ora, quando abri as “hostes” de Berta Isla, estava à espera desse início memorável e transtornador, mas, para alguma surpresa minha, tal não aconteceu ou pelo menos não aconteceu de uma maneira tão evidente e tão “abananadora”. O “twist” está lá, é verdade, mas é mais suave, não há um acumular repentino de surpresa que só terá respostas no final da obra, há sim um abrir de pano algo intrigante, à boa maneira de Marías, que se desenrolará ao longo de quase 500 páginas e nos trará nos derradeiros capítulos factos dos quais não estávamos à espera (pelo menos eu não estava). E no meio desse início e desse final está tudo aquilo que me agrada em Javier Marías, mas que pode assustar os leitores menos precavidos e que caem no engodo provocado pelas primeiras páginas…

         Aproveitando a palavra engodo, a palavra ardil, a palavra cilada, a palavra engano e a citação que, propositadamente, pus no início deste texto, abro-vos um pouco mais o pano da narrativa que se centra num jovem casal espanhol. Tomás ou Tom Nevinson é filho de pai inglês e mãe espanhola. Berta Isla é madrilena de gema e desde muito cedo que soube que um dos projetos da sua vida seria casar com Tomás. Assim o fez. Contudo, nunca lhe passou pela cabeça que a maior parte dos anos de casada os iria passar sozinha, numa cama que pouco ou nenhum vestígio conservaria do seu marido e que, mesmo assim, nunca o iria abandonar ou trocar por outro. Paralelo a esta trama que parece algo corriqueira e já habitual nas obras de Marías, temos páginas e páginas daquilo que seguramente deve dar mais prazer ao autor e que é o que o define – as divagações, as reflexões, as colheradas de citações muito assertivas e relacionadas com a trama e um cuidado com as palavras como muito poucos autores demonstram ter.

         Como vocês podem ver na ficha técnica, eu demorei mais de 10 dias a ler esta obra e não foi somente por causa das suas 496 páginas. Foi porque as mesmas são densas, a mancha gráfica ocupa quase toda a página, há muito poucos diálogos e, quando existem, as falas são longas e, como já disse, a ação nas obras de Marías perde muito protagonismo para as outras características que abundam no estilo do autor. Tudo isto fez com que a leitura fosse algo lenta e que eu demorasse mais tempo a saboreá-la. Confesso que gostei muito de ter a obra comigo durante os dias finais de abril e os primeiros de maio, mas não posso dizer que tenha sido uma leitura que me tivesse preenchido tanto como a de Coração tão Branco, que continua a ser a minha favorita de todas as que li de Javier Marías. Achei a narrativa de Berta Isla mais parada, um pouquinho aborrecida em alguns momentos e gostaria que a protagonista que dá nome à obra tivesse mais espaço e “reconhecimento” como personagem principal porque já não me lembro da última vez que li uma obra na qual a protagonista tem quase sempre comportamentos de não-protagonismo. Contudo, para dar-lhe a pontuação que lhe vou dar, tenho que referir que é uma delícia privar com uma escrita tão rica e entrar numa história que aborda o passado recente (anos 70 e 80) de Espanha e de Inglaterra e “esbarrar” com factos e personalidades históricos tão impactantes como foram o fim da ditadura em Espanha, a curtíssima Guerra das Malvinas, as lutas armadas da ETA e do IRA ou a Dama de Ferro que governou o Reino Unido entre 1979 e 1990.

         Termino este texto que já vai longo dizendo, por um lado, que embirrei muito (sobretudo no início – depois tive que habituar-me…) com a tradução da obra, que peca em algumas expressões idiomáticas e na estrutura das frases.

         NOTA – 08/10

         Sinopse

         Berta casou com Tomás pensando que o conhecia desde sempre mas, na realidade, não sabia nada verdadeiramente importante sobre ele. Tomás escondia-lhe algo que não podia partilhar com ninguém, nem mesmo com ela. Berta Isla é a história de um homem que quer intervir na História, acabando desterrado do mundo. É a história de uma mulher que espera por uma vida completa e, nessa espera, se transforma. É sobretudo uma história da fragilidade e tenacidade de uma relação condenada ao segredo, ao fingimento, ao desencontro; uma história de amor em que lealdade e ressentimento se entrelaçam.

in O sabor dos meus livros

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