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Bento XVI critica representantes da Igreja alemã

As palavras do Papa emérito, proferidas numa entrevista (“Últimas Conversas”), com o jornalista Tobias Winstel, publicada no “Herder Korrespondenz”, causaram um certo desconforto e irritação nos meios alemães e polémica na Igreja Católica.

Bento XVI assumiu um tom surpreendentemente crítico em relação à “igreja oficial” da Alemanha e advertiu para o perigo de uma igreja e doutrina sem fé. “A doutrina deve desenvolver-se na e da fé, não ficar ao lado dela”.

Bento XVI responsabiliza os representantes da Igreja na Alemanha pelo “êxodo do mundo da fé” (abandono da igreja) e lamenta que nos textos oficiais da Igreja só fale o cargo – não o coração e o espírito: “Enquanto apenas a repartição, mas não o coração e o espírito, falar em textos oficiais da igreja, o êxodo do mundo da fé continuará”. Ele espera “um verdadeiro testemunho pessoal de fé por parte dos porta-vozes da igreja”. Também constata: “Nas instituições eclesiásticas – hospitais, escolas, Caritas – muitas pessoas estão envolvidas em posições decisivas, mas não partilham a missão interior da igreja e assim muitas vezes obscurecem o testemunho desta instituição.”

Ao fazer isso, ele critica, indiretamente, também o conflito entre as forças orientadas para a reforma (liberais) e as forças conservadoras. As divergências manifestam-se e são cada vez mais latentes no episcopado e em diferentes grupos de leigos.

Conservadores e Reformadores encontram-se organizados sobretudo nas organizações “Nós somos Igreja” e no “Fórum dos Católicos Alemães”.

“Nós somos Igreja” é uma organização liberal de católicos reformadores, resultante de uma petição (de 2,3 milhões de católicos na Áustria e na Alemanha) para reformas na Igreja e que se formou em 1995; os conservadores, cinco anos depois, organizaram-se no “Fórum dos Católicos Alemães”. Além destas sobressai na opinião pública o grupo reformista de mulheres “Maria 2” e o grupo “O Caminho”.

Já numa entrevista anterior Bento XVI tinha também questionado o sistema do imposto para a Igreja.

Neste contexto, também se distancia da escolha das palavras do seu famoso “discurso de Friburgo”, no qual tinha apelado à “retirada da Igreja católica do mundo”.

Há um receio fundado de os conservadores na Igreja se servirem disto para resistirem à renovação iniciada pelo Papa Francisco.

Enfim, uma questão contenciosa, dado Bento XVI se pronunciar sobre política da igreja. De facto, na Alemanha grupos de católicos conservadores e liberais e bispos conservadores (em torno do Cardeal Woilki) e bispos reformistas (em torno do Cardeal Marx) não são moderados nas suas posições, o que pode não ser benéfico para a Igreja Católica global, devido à influência que a igreja alemã tem.

O Papa emérito, que tinha prometido viver “escondido do mundo”, talvez, como alemão e devido à excitação na igreja alemã, se sentisse agora necessitado a proporcionar, aos representantes da igreja alemã e aos organizadores das alas católicas, mais reflexão e a serem “verdadeiro testemunho pessoal de fé”.

No meio de tudo isto, o apóstolo Paulo continua a advertir: «Se um membro sofre, todos sofrem com ele; e se um membro é homenageado, todos se alegram com ele. Vós sois o corpo de Cristo e cada um no seu lugar faz parte dele» (1Cor 12,26-27).

António CD Justo

 

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