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Basta de manipulação e de extremismo

Um político que ridiculariza o seu próprio país não deveria merecer a confiança de ninguém. Portugal, felizmente, não é o Mali, nem a Venezuela, nem o Uganda, com o devido respeito para estes países. Portugal é uma jovem democracia que se constrói alicerçada no respeito pelas instituições e pelo Estado de direito, no diálogo interpartidário, no desenvolvimento económico e social, na procura de consensos na sociedade e na eficácia crescente dos serviços públicos, na valorização do seu povo e das suas comunidades no estrangeiro, o que tem garantido um progresso assinalável desde o advento da nossa democracia. Quem quiser fazer crer o contrário está a mentir, a manipular e a distorcer a realidade.

Desde as últimas eleições legislativas que o país tem um novo fenómeno que devia envergonhar qualquer pessoa de bom senso, que se alimenta da sua aversão às instituições e aos seus representantes, aos imigrantes e às minorias, aos emigrantes e às suas representações. Não, a Assembleia da República não é um circo nem os seus representantes uns palhaços. Quem exprime estas ideias apenas tem como objetivo provocar a degradação da democracia, pôr os portugueses uns contra os outros e deitar lama no nosso orgulho.

É inaceitável que este tipo de ideologia que pulula pela Europa e chegou a Portugal se possa normalizar, porque faz parte do extremismo identitário, populista e nacionalista, que infelizmente se tornou uma espécie de doença dos tempos modernos, amplificada pela mentira das fake news e pela desinformação que invade as redes sociais, atingindo brutalmente os valores da democracia, da tolerância e da convivência social. Não, o tipo de radicalismo que entrou no Parlamento português não pode ser considerado normal dentro do nosso sistema democrático, quando as suas posições e declarações ofendem regularmente e despudoradamente a Constituição, as leis e a decência.

Aquilo que o Chega traz para a vida política portuguesa não pode enganar, porque emerge da confluência de todos os extremismos, onde se incluem os admiradores da ideologia nazi, dos nacionalismos fechados e intolerantes, da antipatia pelos estrangeiros e pelas instituições democráticas, que se manifesta através da sua agressividade verbal e na dos seus seguidores e na teatralização grotesca da vida política. Apesar de tentar ocultar (ou não) o seu racismo e xenofobia, a verdade é que nada faz para calar os comentários ignóbeis nem para impedir que eles alastrem a partir das suas declarações e posições. Nem há uma palavra para defender e proteger as instituições democráticas e os seus representantes. Bem pelo contrário. E tudo isto é intolerável, porque Portugal não é assim.

Aos poucos, vai-se percebendo melhor como as realidades e os acontecimentos são manipulados e distorcidos e como, dessa forma, se vai dividindo um país, acirrando tensões e despertando o insulto fácil e gratuito. Percebe-se hoje melhor como aqueles em nome de quem se fala não passam de meros instrumentos para a conquista do poder.

É preciso que ninguém se deixe iludir pelo teatro justicialista de quem proclama a falência do sistema só para poder lançar o caos e a confusão, aproveitando-se da ignorância das pessoas, fazendo crer que todos estão abandonados à sua sorte e que nada funciona, defendendo ao mesmo tempo os que estão insatisfeitos com os serviços públicos, o que justifica as agressões, como os profissionais que são agredidos.

A estratégia dos extremistas é a de desacreditar tudo, porque é isso que os seus seguidores sedentos do bota abaixo querem ouvir, mesmo quando o país melhora em todos os indicadores, paga as suas dívidas, aumenta os rendimentos, os direitos e as regalias, baixa o desemprego, reduz a pobreza e torna os serviços públicos mais eficientes. Mas é assim que florescem os populismos e, com eles, a instrumentalização dos outros em proveito próprio.

A verdade é que vez nenhuma os extremismos e os populismos defenderam o povo em nome do qual gostam de falar. Primeiro seduzem-no, mas depois roubam-lhe as liberdades e os direitos, criam descriminações e exclusões, fomentam perseguições, dividem as sociedades e destroem a igualdade de oportunidades. Esperemos, por isso, que o extremismo no Parlamento não passe de um acidente de percurso da democracia, e que os seus valores e fundamentos sejam suficientemente fortes para resistir a todos quantos querem desacreditar as suas instituições e os seus representantes.

Os portugueses sempre foram um povo tolerante, acolhedor e pacífico e é isso que devemos defender contra todo o tipo de radicalismos, que transmitem uma imagem falsa do país que somos. Todos temos a obrigação de preservar o nosso universalismo e a convivência histórica com povos de outros continentes, a começar pelos que falam a mesma língua que nós, com quem temos laços afetivos tecidos ao longo de meio milénio.

A irresponsabilidade do que Ventura vem dizendo é demasiado grave para ficar sem resposta e é um atentado aos valores do humanismo e convivência social. Portugal não é isto e não devemos poupar esforços no combate a estas ideias que destroem a coesão da nossa sociedade, que enganam os portugueses, utilizando para isso permanentemente a falsidade, a omissão e a distorção da realidade.

 

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