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A propagação da propaganda

É sabido que o Facebook é uma plataforma conhecida pelo seu total desrespeito pelo conceito de privacidade, que acumula as informações mais pessoais acerca dos utilizadores e que depois as vende às mais obscuras empresas. Durante os últimos dias pudemos assistir ao requinte de cinismo de ver essa mesma rede social inundada por pessoas que ufam o peito pela privacidade e liberdade individual (que confundem com autodeterminação).

Em causa está a proposta que o Governo planeou levar ao Parlamento relativamente à obrigatoriedade de utilizar a aplicação StayAwayCovid em contexto académico e laboral. Não me vou debruçar sobre as virtudes ou defeitos desta ferramenta, a sua eficácia médica e tecnológica ou a constitucionalidade da sua obrigatoriedade. Haverá pessoas mais competentes para o fazerem.

A informação requerida pela StayAwayCovid é residual quando comparada com o tracking e profiling de Youtube, Facebook ou WhatsApp. Se por um lado o Facebook já vendeu informações pessoais dos seus utilizadores a uma empresa (Cambridge Analytics) que depois a utilizou para influenciar os resultados das eleições americanas, torna-se difícil imaginar o que pode causar tanta celeuma relativamente a uma aplicação controlada pelos poderes públicos, de código escrutinável e que surge por razões médicas num contexto de pandemia.

Dir-me-ão que a diferença é que esta é uma aplicação obrigatória. Bom esta comparação é bastante relativa. Relembro que a que a utilização da StayAwayCovid está limitada a contexto laboral e académico. Quem pode fazer o seu percurso académico sem recorrer ao Google, ao email, ou atualmente ao Zoom? Todos com políticas de privacidade altamente duvidosas. Quantas pessoas não necessitam no seu trabalho de utilizar o email, Zoom, Whatsapp ou Facebook?

O microcosmos do meu feed de Facebook, repleto de pânico com a possibilidade de António Costa vir a saber se fomos à sex shop local, mais não é do que uma câmara de eco daquilo que tem sido a narrativa global hegemónica nos últimos 40 anos. Mass media e atores políticos dominantes cimentaram a ideia de que tudo o que é feito pelo poder privado é natural e indiscutível, enquanto que o que é feito pelo poder público é totalitário e inaceitável.

Jaime Monteiro

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.