“A literatura é o algoritmo da humanidade”: lusófonos debatem IA na Praia
A inteligência artificial sentou-se, este sábado, à mesa com vários escritores lusófonos reunidos na capital cabo-verdiana, que partilharam receios sobre a ferramenta, mas reconheceram que África não se pode atrasar nesta revolução em curso.
No último dia do XIII Encontro de Escritores da Língua Portuguesa, que decorre na cidade da Praia desde quinta-feira, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique fizeram-se representar por escritores que abordaram, de formas diferentes e criativas, o desafio da inteligência artificial (IA) para quem escreve.
Israel Campos, escritor e jornalista angolano, começou por assumir que pediu ao motor de inteligência artificial GPT para realizar um texto, precisamente sobre a IA e a literatura, enaltecendo o facto desta ferramenta assumir as suas limitações, apesar de indicar que sabe escrever e pintar.
E aproveitou um lugar vazio na mesa dos oradores para indicar que este seria ocupado pela IA, o que foi seguido de risos da audiência.
O escritor de 25 anos, autor de várias obras, entre as quais o premiado “E o céu mudou de cor”, disse não pensar muito na IA, interessando-se mais na “perspetiva analítica e refletiva sobre as novas hierarquias do poder”, que cresce diante de todos.
“Como os opressores de ontem e de hoje, a inteligência artificial reproduz o imperialismo: Oprime o oprimido, reina na divisão, divide para reinar”.
E questionou: “Como expulsar um colono que já decidiu que vai ficar?”.
De Cabo Verde, anfitriã deste encontro que decorre na Praia, ilha de Santiago, Silvino Lopes Évora disse que, “quem se habitua a ler textos escritos por humanos, reconhece com facilidade os textos da inteligência artificial”.
O autor de vários livros de poesia assumiu que utiliza estes motores “de uma forma instrumental, principalmente nos processos burocráticos”.
“Mas separo os universos, porque vejo o universo da escrita, sobretudo a escrita criativa como uma expressão da alma. Não entendo como alguém pede à inteligência artificial para lhe dizer como se está a sentir”, referiu.
Da Guiné-Bissau, o escritor Emílio Tavares Lima começou por homenagear o cantor, compositor e produtor musical guineense Américo Gomes, que morreu em fevereiro, cantando uma das suas composições.
No domínio da escrita, apelou para a resistência à automatização da mente e ao conforto das respostas prontas.
“O papel da literatura é mais importante do que nunca. É um código de resistência”, afirmou, considerando que existe uma revolução em curso.
Para o poeta e autor do romance “Tia Delfina Di Minara”, é precisar “envidar todos os esforços para que nenhum país fique para trás, principalmente o continente africano”, nesta revolução que já está em curso.
“África não está plenamente integrada neste terramoto que é a inteligência artificial e é preciso reduzir as assimetrias”, defendeu.
O escritor guineense, que por várias vezes na intervenção recordou o regime “autoritário, corrupto e profundamente cínico” que governa o seu país, apelou para que a literatura seja “o algoritmo da humanidade”.
“A literatura é um refúgio, escrever é amar”, disse.
Moçambique esteve representado pelo escritor Sérgio Raimundo, que leu um texto bem-humorado sobre o que chamou de episódio que o levou a conhecer a IA em 2001, quando tinha 09 anos.
A ocorrência, narrada pelo autor de “O colono preto saiu do guarda-fato”, incluiu um encontro da madrinha do escritor com um vizinho, sem conhecimento do padrinho, ao qual assistiu enquanto criança.
O texto, escrito e lido pelo autor, provocou várias gargalhadas na audiência e fortes aplausos no final, tal como aconteceu no fim das intervenções deste painel, o último do encontro organizado pela União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA) e a Câmara Municipal da Praia.