Um empresário luso-venezuelano dizia desapontado que as relações entre Portugal e a Venezuela estavam a zero e que era preciso que fossem retomadas. Com efeito, a degradação das relações nos vários domínios foi-se acentuando nos últimos dez anos, para estar agora no ponto mais baixo, o que tanto prejudica Portugal como a comunidade portuguesa.
Tudo indica que a Venezuela está empenhada em abrir-se económica e politicamente e em reconstruir as suas relações internacionais, enquanto em Portugal muitos ficaram cristalizados nas posições formadas no tempo da irracionalidade económica, penúria e repressão política de Nicolás Maduro.
Independentemente do Governo que esteja na Venezuela, é da mais elementar regra diplomática que as relações bilaterais nunca devem fechar as portas ao diálogo, desde logo devido à existência de uma comunidade portuguesa e luso-descendente que ronda um milhão de compatriotas, que exige uma presença oficial de Portugal que faça a ponte com ela e com as autoridades.
A recente deslocação à Venezuela do secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, foi muito importante para consolidar os canais de diálogo e defender e apoiar o papel da comunidade portuguesa e luso-venezuelana perante as autoridades, que manifestaram o seu reconhecimento sobre a importância dos portugueses e luso-venezuelanos para o desenvolvimento do país.
Por outro lado, José Luís Carneiro encontrou-se com os empresários e dirigentes associativos que manifestaram o seu desejo de terem quem os ouça e leve as suas questões, necessidades e anseios ao Governo, tanto de Portugal como da Venezuela. Bastante relevante, foi, neste contexto, o pedido feito para a libertação dos detidos de origem portuguesa e para a restituição de uma padaria expropriada selvaticamente em 2017.
Nada disto tem que ver com qualquer forma de diplomacia paralela, mas apenas para cumprir com a obrigação de manter a proximidade e o acompanhamento da comunidade portuguesa, que, obviamente, não é, nem deve ser, exclusivo do Governo. Antes deve ser encarado como um esforço coletivo para apoiar os portugueses numa fase de transição da vida política na Venezuela, país onde os portugueses estão em todos os setores da sociedade e em todos os patamares da hierarquia social, com particular destaque para as instituições legislativas, executivas, administrativas e económicas, o que constitui uma poderosa alavanca para aproveitar o gigantesco potencial de cooperação. A comunidade é extraordinariamente vibrante, empreendedora, com um movimento associativo muito forte e solidário, com que o secretário-geral do PS teve oportunidade de dialogar.
Mas os canais de diálogo também são importantes nos tempos de perturbação, para facilitar o acesso às estruturas políticas no caso de haver necessidade de intervenção para apoiar a comunidade, como aconteceu durante o período de grande agitação social devido às políticas económicas irracionais e disruptivas do Presidente Nicolás Maduro, que deram azo a expropriações e ocupações selvagens de negócios de portugueses e a detenções arbitrárias. Foram esses canais que permitiram a Portugal apoiar a comunidade em momentos críticos, como aconteceu então com a intervenção do Governo português, que por isso mesmo conseguiu a libertação de alguns compatriotas, recuperar vários negócios e criar uma rede de apoio médico e distribuição de medicamentos.
Pelo que voltar as costas a um país onde a comunidade tem um papel económico tão importante é o equivalente a abandoná-la, por serem proprietários da maioria do comércio alimentar, da grande distribuição e de pequenos comércios, da quase totalidade das padarias e por estarem na produção industrial e noutros setores.
Por isso, quando se fala da Venezuela, muitas vezes apenas com motivações partidárias, descurando o interesse nacional, é preciso medir as consequências do que é dito para a comunidade portuguesa e para as relações entre os dois países. O pior que se pode fazer é criar ideias hostis e erradas sobre o país que possam criar dificuldades acrescidas aos portugueses e luso-venezuelanos e constituírem assim um fator de bloqueio das relações diplomáticas e das possibilidades de diálogo.
Entretanto, seria importante que Portugal estivesse atento às transformações por que está a passar a Venezuela, para aproveitar plenamente as oportunidades que se apresentam na economia e na sociedade, fruto de alterações legislativas que poderão tornar o país mais aberto, competitivo e democrático.
