De que está à procura ?

alemanha
Lisboa
Porto
Berlim, Alemanha
Colunistas

A. Garibáldi. Era Agosto mas foi Páscoa

A madrugada não estava assim parda, nublosa nem com chuva-molha-tolos como a de hoje. Era quente.

Ele, meticuloso quanto era, àquela hora estava a compôr com os caractéres em chumbo, letra a letra e colocadas ao contrário, para imprimir a sua A Gazeta de Felgueiras.

Um dia, com interesse que o jornal ficasse para mim, quis que eu aprendesse “a caixa”! Mas ao tempo o mais primário mêtodo de composição / impressão já era bem mais avançado. (…)

Compunha a sua A Gazeta de Felgueiras. Daí que logo bem cedo caiu a notícia: o senhor Garibáldi morreu.

A angina de peito, que ele tantas vezes lembrava e o levava a ter muitos cuidados, inclusivamente alimentares, traía-o definitivamente.

Eu era moço mas contava uns bons anos de amizade e convivência privada com ele.

Lembro de, triste, vaguear pelo jardim público na praça maior de Felgueiras, que tantas vezes se curvara à sua passagem, “quando caminhava pela vilinha de gente obreira”.

Não havia ainda muita informação acerca das exéquias – até porque seria um funeral civil (para mim, e em geral, ainda desconhecido). E não muito mais que se dizer, além de que circulava esconsadamente manhã serena.

Depois, e dada a minha proximidade – mais estreita além da sua pequena família, foi a solicitação pela comunicação social (CS) da altura para eu fornecer elementos e eu mesmo escrever os meus textos sobre tão infausto acontecimento.

Fora A. Garibáldi que pereceu. O último número de A Gazeta de Felgueiras cuja composição já não acabou, viria a ser desfeita e e enviada para uma gráfica moderna.

De A. Garibáldi, de toda a nossa vivência, tenho tudo tão presente, que, paradoxalmente, me é dificil dissertar, concorrendo até para sobrepôr as informações. Hoje também não adianta muito.

Teria adiantado bem mais se a minha vida em 1991, 1992 se afigurasse pronta para tomar sem custos, por oferta, a Gazeta de Felgueiras para mim, como era seu desejo.

E se eu dissesse que à hora que escrevo, não me apetece perorar mais porque oiço a chuva, a noite é mais escura…

A esta hora, nesta madrugada, em 20 de Agosto de 1992 – esse, sim, dia típico de Agosto, não chovia quanto nesta, mas eu tinha mais frio quanto, paradoxalmente, hoje, tal como A. Garibáldi, que não gostávamos deste tempo atmosférico incerto.

A. Garibáldi é o nome literário de Artur Garibáldi Pereira Braga – nome por que ninguém o conhecia. Nasceu a 27 de Novembro de 1913, em Braga, mas tornou-te totalmente felgueirense. Repousa neste chão.

Foi poeta e jornalista. Em 2002, para referenciar os dez anos do seu perecimento, foi compilada a sua poesia em Voz Insubmissa.

Trouxera a lume cerca de cinquenta publicações, entre pajelas e “folhetos”, a partir da sua primeira publicação, em 1934, com o titulo “Nada”.

E foi muito. Foi meu amigo e não amigo de massas, mas de gente, de povo.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.