
A luz clara da primavera entrava pela janela, pelos moveis , pela casa , inundava o espaço de um brilho alegre e sedutor. É Abril e as flores desabrocham frágeis nos canteiros colocados nas janelas, nos jardins,nas praças. Tudo parece querer renascer depois de um inverno longo e frio.
Clara , olhava para isto tudo com um sentimento sempre renovado, o inverno provocava sempre nela um sentimento de dormência, de hibernação do qual não conseguia escapar, com os anos via este este sentimento acentuar-se, apoderar-se dos gestos mais simples, da vontade de viver, roubar-lhe o sorriso,a luz dos olhos.
Neste domingo, sentada no sofá da sala, alegrava-se de sentir o calor do sol no rosto, de sentir a luz da primavera agasar-lhe o corpo e sobretudo iluminar-lhe a alma.
Na sala, contemplava as fotos que envelheciam a par dela, a foto da mãe ainda jovem com o seu sorriso de alegre de adolescente, a do sobrinho e afilhado, era ainda bébé naquela foto, mas assim permanecia no seu imaginário, no seu mundo interior, os filhos ainda mais novos, com um sorriso traquina, uma fotografia sua que marcava um dia inesquecível da sua juventude.
Todos aquelas fotos, eram o seu mundo mais íntimo de amores e de afetos, gostava de as contemplar todos os dias, não era saudosismo ou vontade de viver no passado, eram apenas retalhos dos afetos que guardava no coração, era a frágil ligação entre passado, o presente e o futuro.
É dia de Páscoa, e nada mais acontece agora neste dia que possa marcar a sua vida com a marca da religiosidade com que cresceu e viveu os dias da sua infância.
A taça das amêndoas que colocara na mesinha da sala, transportou-a para o passado, para a aldeia onde cresceu e onde a Páscoa era vivida de uma forma intensamente religiosa e que marcava a passagem da morte para a vida, do tempo de trevas para a luz do divino, do tempo do frio para o tempo das sementeiras e das colheitas.
Tudo começava com o tempo de Carnaval, depois da folia, a quarta-feira de cinzas lembrava que começava ali o tempo da quaresma e do jejum, o tempo de preparação ao renascimento.
No domingo de Ramos, domingo que antecede o domingo de Páscoa, a procissão de ramos atravessa a aldeia marcando a chegada de Jesus à sua terra, amado e aclamado como um Salvador.
Na Semana Santa a aldeia vestia-se de um frenesim diferente, as mulheres limpavam as casas, retiravam todos os haveres para o pátio, limpavam até ao mais ínfimo recanto, os homens na maior parte das vezes caiavam de novo as paredes.
Eram as limpezas da Páscoa, a preparação para receber Jesus ressuscitado no coração dos lares, nas suas precárias vidas, no seu coração de homens da terra.
A vida, sentiam-na muitas vezes o seu próprio calvário, a cruz que teria de ser levada ao jardim das oliveiras, muitas vezes caindo, sangrando do joelhos e da alma mas sempre, sempre arrastando o peso da cruz pela vida até ao fim.
No dia de Páscoa, todos acordavam com uma alegria nova, renascida, os sinos tocavam a aleluia, os homens e as mulheres vestiam os seus fatos domingueiros e juntavam-se no adro da igreja para a missa. Era dia de Páscoa. Dia da ressurreição, dia do Senhor.
Depois da missa, cada um voltava a suas casas, o Padre, um homem carismático e bem disposto, amigo de todos e sobretudo conselheiro, iniciava a visita pascal.
Assim se iniciava o compasso pascal naquela aldeia e em tantas aldeias do pais. O pároco liderava a pequena comitiva, com o crucifixo nas mãos que representava a presença de Jesus vivo, visitava cada casa com alegria e devoção, benzia a casa, os habitantes, e dava o crucifixo a beijar a cada membro da família, começando pelo patriarca. Depois seguiam-se alguns minutos de confraternização onde se partilhavam as amêndoas e algum vinho espirituoso.
Era assim também na sua casa, era assim também a Páscoa da infância de Clara. A sua casa era uma das últimas a ser visitada, o dia era preenchido pela visita à avó velhinha que vivia numa aldeia a alguns quilómetros dali.
Pelo fim da tarde voltavam, ela e os irmãos iam muitas vezes buscar o folar a casa dos padrinhos, tradição daquela região, e juntavam-se todos no fim do dia para receber o compasso.
A rua juncada de alecrim e erva de anis, perfumava os passos do Senhor, e a entrada de jesus ressuscitado na casa, o pai era o primeiro na fila crescente dos filhos e esperar a entrada do compasso.
Eram momentos especiais aqueles, momentos em que Clara via um sorriso de alegria e de felicidade no rosto do seu pai.
Sentada no sofá da sua sala,longe das tradições religiosas, longe dos familiares, num outro país, Clara recordava este tempo, não eram saudades, não era a nostalgia a visitar a casa como acontecia tantas vezes, era apenas uma forma de trazer Jesus rescucitado e o compasso da sua infância ao coração da sua própria casa, à sua religiosidade interior e crescente..
Contemplou de novo as fotos pousadas no armário, pegou numa amêndoa e soletrou a palavra que tantas vezes fizeram eco na sua cabeça neste dia…
ALELUIA!
