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Ajudar Moçambique? Sim, mas…

Há quase um mês, o ciclone Idai arrasou quase inteiramente a Beira, que, embora ultrapassada demograficamente, em anos recentes, por Nampula, conservava ainda laivos de segunda cidade de Moçambique. Digo «quase inteiramente» porque alguns edifícios e estruturas lograram manter-se incólumes no meio de um caos impressionante. E não é sem orgulho que assinalo serem, em geral, datados da chamada «época colonial»: a catedral (embora com danos na cobertura), a estação ferroviária (um ícone arquitetónico do seu tempo), o aeroporto, alguns prédios do centro histórico. Entretanto, uma escola construída há meia dúzia de anos no âmbito da cooperação da República Popular da China voou em mil pedaços. Mas não era exatamente disto que eu, português nascido em Moçambique e lá residente durante vinte e cinco anos, quero aqui falar.

Acalmado o temporal, regressados o Púnguè e o Búzi aos seus leitos normais, importa fazermos uma reflexão sobre a ajuda inegável de que carece uma população confrangedoramente desprovida dos mais básicos meios de subsistência.

A particular penúria de meios de socorro na Beira talvez tenha algo a ver com o facto de nesta zona ser maioritário, a nível autárquico, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que se distancia, pela positiva, das pouco confiáveis Frelimo (o corruptíssimo partido que governa Moçambique desde a independência) e Renamo (principal opositor do partido do governo). Com efeito, se a capital, Maputo, foi sempre uma vitrine privilegiada em termos de auxílios estatais (porque maioritariamente frelimista), a Beira, pelo contrário, nunca mereceu grandes atenções do governo central, tanto mais que o seu autarca, Daviz Simango (do referido MDM) é filho de Uria Simango, antigo vice-presidente da Frelimo, caído em desgraça a favor de Samora Machel e mais tarde executado, juntamente com sua mulher, Celina. Segundo revelaram os jornalistas José Pinto de Sá e Nélson Saúte em 1995 no diário português Público, Uria Simango e outros dissidentes que a Frelimo classificava como «traidores» e «grandes reacionários» terão sido queimados vivos em 1977 num dos chamados «campos de reeducação» da remota província do Niassa.

A verdade é que, 44 anos após a independência e a «libertação do jugo colonial», Moçambique continua a ser um dos países mais pobres do mundo. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento classificou-o em 2018, uma vez mais, como o 10.º a contar do fim, numa lista de 189 países. Existe, entretanto, uma elite, impropriamente designada por «burguesia negra», pouco ou nada afetada pela miséria e que ao longo deste quase meio século esteve mais ocupada a encher os bolsos do que a fazer do seu país o lugar «risonho» e «promissor» de que falava por alturas da independência. O atual presidente da República, Filipe Nyusi (lê-se «Nhússi»), não passa de um pau-mandado do anterior, Armando Emílio Guebuza, e este é, por sua vez, uma das maiores fortunas do continente africano. Em matéria de corrupção e amiguismos, a situação de Moçambique não difere substancialmente da de Angola durante a governação nepotista de José Eduardo dos Santos: o mesmo açambarcamento das fontes de riqueza por parte da família e do entorno próximo de quem governa. Dá-se simplesmente a circunstância de Moçambique ser menos «apetecível» do que Angola aos olhos da comunicação social portuguesa e, pelo contrário, ter sabido conquistar complacência na arena internacional.

Deter-me-ei um pouco na figura de Armando Guebuza: membro do partido Frelimo desde os primórdios da luta armada que este travou contra a soberania portuguesa, foi ministro da Administração Interna durante os nove meses do Governo de Transição (do chamado «Acordo de Lusaca» que o governo provisório português assinou em 7 de setembro de 1974, nos termos do qual Portugal reconheceu a Frelimo como interlocutor único, até à independência efetiva em 25 de junho de 1975). Guebuza era então conhecido pela sua animosidade em relação à comunidade portuguesa: terá sido ele o autor de um regulamento, conhecido por esta comunidade como «decreto 24/20», ao abrigo do qual se invocavam quaisquer pretextos para expulsar portugueses no prazo de 24 horas, com 20 quilos de bagagem máxima e expropriação dos bens. O caráter odiento de Guebuza fica bem ilustrado pelo seguinte episódio, do qual tive conhecimento por uma testemunha direta: numa sessão de recrutamento de futuros militantes da Frelimo entre estudantes universitários, o então ministro da Administração Interna e Comissário Político Nacional declarou que, para se livrar dos portugueses, a Frelimo não precisaria de recorrer à controversa medida de Idi Amin, que, em 1972, expulsara sumariamente do Uganda o grosso das comunidades indiana e paquistanesa; e isso porque, segundo ele, os portugueses eram «inerentemente reacionários», bastando a Frelimo tomar um conjunto de medidas destinadas expressamente a afugentá-los (recordo-me, com efeito, de nos primeiros meses após a independência me interrogar, a cada dia, que novo estratagema urdiriam eles para nos tramarem a vida).

O corolário desta hostilização propositada da Frelimo em relação à comunidade portuguesa, sob a capa de uma revolta alegadamente justa contra a «opressão» e o «colonial-fascismo», foi a pesporrência da elite governante e da presunçosa classe média no trato com Portugal, país que, paradoxalmente, é quem mais se apressa a acudir às necessidades ingentes de Moçambique (ao saber que eu era português, um voluntário belga que participara em operações de socorro na sequência de uma catástrofe natural de dimensões semelhantes às do ciclone Idai, ocorrida em 2000, exclamou: Le Portugal, le seul pays qui se soucie du Mozambique…). Decidiram voltar-se para a China e para o antigo bloco de influência soviética, a que Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique, chamava «zona libertada da Humanidade». Cada qual escolhe as colonizações que mais lhe agradam, e hoje a China, enquanto projeta e constrói obras públicas controversas, como a espampanante e desproporcionada ponte Maputo-Catembe ou o cortejo de novos hotéis, edifícios governamentais e condomínios fechados para os cooperantes estrangeiros e a elite, na capital, vai pilhando os recursos florestais e piscícolas de Moçambique. Entretanto, a sua presença no auxílio às vítimas do Idai é residual (a Rússia, essa, brilha pela ausência, como é hábito).

Uma das manifestações mais flagrantes de pesporrência ocorreu em março de 2008, durante a visita de Maria Cavaco Silva, mulher do então presidente da República Portuguesa, ao antigo liceu Salazar (rebatizado Escola Secundária Josina Machel), onde lecionara em 1964-65 e onde iria proferir uma conferência sobre a paz recentemente alcançada ao cabo de décadas de guerra civil: um magote de calcinhas da dita classe média aglomerou-se nas varandas, aos assobios e vaias, como se se julgassem legítimos proprietários de algo que tivessem outrora possuído e agora recuperado.

A substituição da governação portuguesa pelo regime da Frelimo não mudou rigorosamente nada para melhor. A única diferença (superficial) é que os abastados de hoje têm a pele escura. Mas, ao contrário dos colonos de outrora, que sustentavam a sua prosperidade numa certa atividade económica, direta ou indiretamente benéfica para a restante massa, os privilegiados de hoje vivem faustosamente em resultado de um parasitismo que os complexos de culpa do Ocidente vão olhando com bonomia. Não me consta que Guebuza ou quaisquer outros elementos da elite moçambicana tenham acorrido a juntar-se aos voluntários de todo o mundo, às ONG internacionais, à Cruz Vermelha, aos bombeiros e forças armadas portuguesas, que são quem, neste momento, se azafama no terreno, junto dos desgraçados a quem o Idai tudo levou do pouco que tinham, resgatando pessoas isoladas, instalando unidades de purificação de água, montando maternidades de campanha, tratando e vacinando contra a cólera, distribuindo alimentos, reconstruindo habitações, escolas e hospitais. Porque a política marxista que a Frelimo aplicou nos primeiros anos pós-independência destruiu as infraestruturas criadas pela administração colonial portuguesa («escangalhar o aparelho de Estado colonial» era uma das palavras de ordem por esses dias).

Bem sei que o teor desta minha crónica destoa do coro de lamúrias e apelos à solidariedade para com Moçambique. Por exemplo, no programa da RTP Mundo Sem Muros, a jornalista espanhola Begoña Íñiguez, correspondente em Portugal da Cadena Cope e de La Voz de Galicia, apontou os «deveres do ex-colonizador» — como se o fenómeno histórico da construção de impérios servisse, hoje e ad aeternum, de garantia para a inércia dos colonizados e de hipoteca sobre os colonizadores. Em contraste com esse oportunista libelo acusatório, ressalvo os insuspeitos casos de Ana Gomes, deputada do Parlamento Europeu pelo Partido Socialista, e da jornalista Clara Ferreira Alves, autoras de posições desassombradamente críticas em relação à responsabilidade (ou à falta dela) por parte dos governantes moçambicanos.

Sei também que não faltará quem me alcunhe de «colonialista ressabiado» e outros epítetos a que uma certa esquerda recorre quando não logra reações unânimes ao que propala. Mas eu não compro, em troca de hipocrisias, as louvaminhas de quem se julga bem-pensante. Permito-me, pois, recomendar que, na prestação do auxílio, se evitem fretes aos nababos que chamaram a si a governação de Moçambique e que muito amiúde se aproveitam do paternalismo e dos complexos de autoflagelação do mundo ocidental, aliviando-os a eles das obrigações para com o povo cujo nome invocam.

Jorge Madeira Mendes

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