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Açorianos em São Domingos

No decurso dos últimos anos o acervo bibliográfico sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com o lançamento de um conjunto significativo de livros que têm ampliado o estudo e conhecimento sobre a história da emigração portuguesa.

Um dos exemplos mais recentes que asseveram a importância destas obras na análise e compreensão da emigração nacional, encontra-se vertido no livro “Açorianos em São Domingos” da autoria do antropólogo e historiador luso-brasileiro, Luiz Nilton Corrêa.

A obra, lançada no ocaso do ano passado com a chancela da Letras Lavadas e o apoio da Direção Regional das Comunidades, do Governo dos Açores, e que é resultado da dissertação de mestrado realizada pelo investigador luso-brasileiro entre 2006 e 2008 na Universidade dos Açores, com orientação do saudoso professor Carlos Cordeiro, conhecido pelo seu trabalho de investigação sobre a identidade açoriana, aborda a saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940.

Embrenhando-se num fenómeno marcante na vida de milhares de açorianos, estima-se presentemente que cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes residam no estrangeiro, o trabalho de Luiz Nilton Corrêa tem o condão de deslindar uma dos movimentos da emigração açoriana que não é tão conhecido como o dos seus cinco grandes destinos nos séculos XIX e XX (Brasil, Estados Unidos da América, Bermudas, Havai e Canadá).

Mormente, o processo de emigração e repatriamento de um grupo de micaelenses que seguiu em 1940 para a República Dominicana, país que divide o território da ilha Hespaniola com a República do Haiti, atualmente conhecido como um dos principais destinos turísticos mundiais, e cuja capital e maior cidade é São Domingos.

Em plena II Guerra Mundial, como desvenda Luiz Nilton Corrêa, o segundo maior e mais diverso país caribenho, através de um pretenso atrativo pacote de apoios fomentou uma política de atração de milhares de refugiados do conflito bélico, assim como de imigrantes, de modo a incrementar o seu desenvolvimento populacional e económico.

Foi neste entrecho, que em 1940 um grupo de centena e meia de emigrantes naturais de São Miguel, marcados pelo espectro da pobreza e na demanda de melhores condições de vida, encetaram uma trajetória efémera em direção à República Dominicana. O almejado eldorado caribenho revelou-se uma experiência traumatizante, que acentuou ainda mais o sofrimento e a pobreza vivenciada na pátria de origem, e que terminou tragicamente com a morte de dois emigrantes micaelenses e o repatriamento do grosso dos mesmos através de diligências do governo ditatorial do Estado Novo, após pressão das comunidades açorianas nos Estados Unidos da América e nas Bermudas.

Na esteira das palavras da investigadora Susana Serpa Silva, tendo em conta a “importância de que se reveste a temática da emigração – intimamente ligada à História, à memória e à identidade arquipelágicas”, o recente livro dedicado à saga dos emigrantes micaelenses na República Dominicana em 1940 constitui mais um importante contributo para a compreensão da história da emigração açoriana, e do demais território nacional, ou não fosse a emigração um fenómeno constante da vida portuguesa.

 

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