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Acordei.
O mundo estava parado.
Ninguém sabia já existir.
Um vírus e o pânico lá fora.
Fomos, somos porquê? O que pensamos, o que éramos?
Tu sabias, quem sabia?
E eu aqui, comigo mesma, ouvindo o meu corpo a falar, a sentir tudo o que de errado eu fazia.
Nem me sentia, apenas acordava e ia, ia trabalhar, preparada para a vida que nem vida era.
Cuidava da minha filha com amor mas com muitas agendas de um dia-à-dia em automatismos.
Que sentido faz ir até lá fora se ninguém se olha e ninguém se vê. Mais um copo naquela esplanada, mais umas quantas gargalhadas ao sol… Mas no fundo, quem sabe alguma coisa do outro e da vida? O importante é sobreviver sem dar importância ao canto do passarinho nem à borboleta azul que passa por ti. As abelhas foram-se e depois? Depois nada.
O dinheiro compra tudo, o dinheiro resolve os problemas. Vamos aos shoppings? Mais uns sapatos, uma joia… E o ser humano? Interessaste-te por ele?
Chorei, pensei na tristeza do ser humano que pensa em voltar ao ruído, ao barulho do quotidiano para nada ouvir e não parar para ajudar a pessoa idosa a atravessar a rua.
As crianças ficaram perplexas de nunca mais sentir o carinho dos seus pais, de ver a distância no tão perto, nessa presença não presença.
– E mamã, vamos brincar ? Não posso, meu amor, eu estou a trabalhar, chama-se teletrabalho, trabalhar em casa.
Pois é, assim mesmo, a sociedade continua igual, igual a ela mesma, a pensar na economia e então? Então eu respondo: sem ser humano a economia nem existia, nem existe, nem existirá.
Mas todos nós, todos vós dizem o contrário! Sim, o dinheiro primeiro e o ser humano em último porque a natureza é também o ser humano e esse pormenor virá sempre em último lugar. Seremos os últimos, sim, a economia em primeiro, os primeiros a morrer, a morrer, sim, pois viver já não vivemos, quem vive é a economia.

Olhei para a minha realidade.
Pensei, onde andam as minhas paixões? O que me move na vida?

Toda a minha realidade ainda não é a minha vida, essa que eu sonho e desejo.
Quero mais, quero viver e existir. Escrever e editar, ajudar os outros através da escrita e não só. Tanto para dar. Sim, sou de dar. Sim, sou eu assim dessa maneira. O confinamento trouxe-me as certezas, essas que são minhas, nunca é tempo para nada, andamos numa correria e esquecemo-nos do que realmente nos dá vida e sentido neste mundo terrestre.
E sendo assim, eu agora vou viver todos os meus sonhos, vou tentar e lutar por tudo aquilo que me faz vibrar e lutar por quem amo e, mesmo sem tempo, vou finalmente existir.

BV150720

 

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