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A vontade do eleitor versus a aceitação acrítica de sondagens

© lusa

Quando em 2016 as sondagens nos EUA davam como garantida a vitória da candidata Clinton (em parte com quase 5% de avanço sobre Donald Trump); hoje sabemos que as previsões estavam erradas e não  deram o resultado que muitos esperavam e no fim, contra todas as expectativas, Trump foi eleito presidente.

Muitos questionaram o valor das sondagens e estas começaram a ser vistas como um indicador impreciso, visto muitos eleitores decidirem à boca da urna em quem dão o seu voto.

Nos dias em que vivemos há muitos factores que, por um lado condicionam a participação cívica e por outro a situação política e económica criam medos e inseguranças que se reflectem no voto emocional e de última hora; as sondagens nestas alturas é algo que pode ser considerado sem valor.

No entanto, e considerando que as sondagens eleitorais têm vindo a ocupar um lugar central no debate político, sendo frequentemente tratadas como previsões quase definitivas; a  sobrevalorização das sondagens pode ter efeitos negativos na participação democrática. As sondagens podem contribuir para a percepção de que o resultado já está decidido, reduzindo o sentido de responsabilidade individual dos eleitores.

Quando os cidadãos acreditam que a „corrida já está ganha“ e que não é o seu voto “que irá fazer a diferença”, cresce a probabilidade de abstenção. Os eleitores que se identificam com um candidato aparentemente vencedor podem optar por não votar, confiantes de que a vitória está garantida. Neste caso o candidato já considerado como „perdedor“ poderá ser o vencedor da eleição por excesso de confiança daqueles que não foram votar. Este fenómeno é particularmente preocupante nas Comunidades, onde a abstenção já é historicamente elevada. Assim, a ausência nas urnas acaba por favorecer quem tem eleitorados mais mobilizados e ideologicamente fechados — um terreno onde a extrema-direita tende a prosperar.

Como sabemos, as sondagens não são instrumentos infalíveis. Dependem de muitos factores bastante complexos.  Ao serem divulgadas de forma acrítica pelos meios de comunicação social, correm o risco de moldar comportamentos em vez de apenas os retratar. Assim, transformam-se de ferramentas de análise em fatores de influência política.

A democracia assenta na participação ativa dos cidadãos.

Cada voto conta e contribui para a construção do futuro coletivo. Quando as sondagens substituem a reflexão crítica e a mobilização cívica, corre-se o risco de transformar eleições em meros exercícios formais, afastando os cidadãos do processo político. Por isso, é fundamental encarar as sondagens com cautela e reforçar a importância do voto como expressão essencial da vontade popular.

Mais do que escolher entre nomes, votar é escolher entre visões de país. As Comunidades Portuguesas têm voz, têm peso e têm responsabilidade democrática. Encarar as sondagens com espírito crítico e recusar a abstenção é um passo essencial para garantir que o futuro político de Portugal não seja decidido pela indiferença nem pelo medo.

Alfredo Stoffel

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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