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A Ucrânia está em guerra

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O Presidente ucraniano declarou o estado de emergência. A infraestrutura das bases aéreas ucranianas foi destruída, segundo informa o governo russo.

O mais trágico que se pode observar no conflito fora e dentro da Ucrânia é o facto de não ser dado tempo aos habitantes ucranianos para se habituarem uns aos outros e formarem com o tempo um povo unido! Os interesses da Nato e da Rússia, empenhados em instigar a instabilidade, não dão tempo nem permitem um desenvolvimento orgânico da Ucrânia. As interferências perpetradas pelos centros imperialistas modernos atafegam à raiz qualquer desenvolvimento orgânico e natural de povos e regiões.

A Ucrânia está em guerra; tem 200.000 soldados na disponibilidade e ordenou agora (23.02.2022) a mobilização de cerca de 250.000 reservistas. A Europa tem estado a preparar-se para acolher os refugiados. O público tem o direito de ser completamente informado sobre as condições na Ucrânia, de modo a poder orientar-se à margem do pensamento a preto e branco dominante; doutro modo são enfileirados nas trincheiras a serem contruídas na opinião pública tornando-se, assim, em arautos e belicistas cúmplices de um partido ou do outro. Putin, Biden e as partes beligerantes sabem de antemão que terão todos razão, independentemente do certo ou errado, porque as pessoas não estão em posição de questionar nada e orientar-se-ão pelos factos criados.

Os adversários Putin e Biden continuam na sua teimosia. Putin esconde os seus pretextos na sua exigência de que “a NATO não deve ser alargada à Ucrânia”. A NATO esconde o seu pretexto não cedendo; deste modo são servidos e justificados os respectivos interesses na guerra e as populações são orientadas de modo a tomar partido e deste modo a aceitar as consequências de uma guerra estimulada por gente irresponsável onde quem morre é a juventude e quem aguenta as consequências é a população em geral. A fim de se sair desta situação desumana, não se deveria pensar apenas estrategicamente. No caso, a melhor solução seria a Ucrânia tornar-se uma república federal neutra independente.

As fronteiras estão, de novo, a ser movimentadas na Europa e a zona da Ucrânia e da península Balcânica continuam a ser zonas “vulcânicas” devido ao encontro/distanciamento das “placas continentais”! As repúblicas separatistas de Lugansk e Donetsk reivindicam todo o território Oblast. A região Oblast de Lugansk tem 2,1 milhões de habitantes e 1,4 milhões deles são separatistas; o território tem 26,7 mil quilómetros quadrados. A região fronteiriça Oblast de Donetsk tem 4,1 milhões de habitantes e cerca de 2,2 milhões são separatistas e a área é de 26,5 mil quilómetros quadrados. Na Ucrânia a miopia política e a corrupção têm contribuído para muitas medidas contra a inclusão do povo de tendência russa e ucraniana. O divisionismo na Ucrânia, nem sequer a religião poupou. Nos anos 90 surgiu uma nova igreja ortodoxa separada do patriarcado de Moscovo, entretanto surgiu também uma outra e em 2018 foi fundada a Igreja Ortodoxa da Ucrânia como igreja ortodoxa autocefálica. Também o russo, que é hoje falado por quase toda a população da Ucrânia, mas principalmente no leste e sul do país, bem como na capital Kiev (3), tem sido objecto de impedimento legislativo oficial. Encontramos na Ucrânia os vícios reunidos da Nato e da Rússia que levarão ao desmantelamento da Região.

Numa América do Norte acossada pela China, ao lado de uma Rússia ainda por fazer e de uma UE, no meio delas, a querer aparecer, Putin procura interpretar os sinais dos tempos e aproveitar-se para corrigir o desequilíbrio criado depois da queda da União Soviética; para completar o seu império aproveita para fazer o que os EUA têm feito em seu proveito. Putin aprendeu a lição; nesse sentido, procura também afirmar-se criando factos consumados, com o argumento de não querer deixar o destino das nações tão entregue às mãos da NATO (e da China)!

Na dureza do confronto das potências, também a União Europeia vai procurando granjear um lugar ao sol, entre os blocos de influência, servindo-se mais de paliativos; para tal usa o proclamado ideal da democracia como antes usava o ideal da religião; tudo roupagens bonitas mas que escondem, perante o povo, o verdadeiro rosto (o poder) que por baixo desse manto se esconde! Em nome da democracia serve, (também ela não tanto como senhora mas como serva), a guerra, dos USA e da Nato, criando instabilidades em países mediante o fomento ou o apoio de lutadores da resistência dentro de povos, e tudo só para bem da sua “democracia” e da economia (o mesmo estratagema usam pretensas potências como o Irão e a Turquia em nome do islão, na Índia em nome do induísmo, na China em nome do comunismo e na Rússia em nome da Rússia de recordação comunista: todos os povos elaboram o seu lampião para alumiarem o seu caminho no pretexto de não deixarem o povo às escuras!). Na lógica da Nato, nas zonas de seu interesse, o princípio de autodeterminação democrática já não conta. Desde 1953, a NATO cometeu 13 violações do direito internacional sem um mandato da ONU.

A Rússia imperial está consciente de querer modernizar-se e, à maneira progressista, num tempo já não de construção de nações, mas numa fase mais adiantada de desconstrução que corresponde à estratégia de alinhamento de complexos geoestratégicos, englobantes de países e regiões mais pequenos. Na perspectiva da globalização, este factor dar-lhe-á razão, uma vez que vem do progresso e ele está aí a chegar nas novas demarcações económico-políticas que procuram território irreversivelmente demarcado para se instalarem no novo mundo de maneira sustentável! Por mal das circunstâncias, a decisão da Ucrânia não se encontra nas mãos dos ucranianos, não só pelo facto de se encontrarem divididos entre si, mas pelas razões mais altas dos correspondentes interesses dos falcões geopolíticos, a quem servem. A História não se deixa disciplinar pela moral, ela segue apenas os factos criados por interesses e estes pertencem sempre aos mais fortes; uma vez criados os factos, o povo estará sempre pronto para os seguir atrás a aplaudir. A moral só sabe caminhar com o povo, mas os interesses seguem uma via diferente caminhando com os maiores! Putin sabe bem que, se, a Rússia que alberga vários povos, desse asas à democracia isso corresponderia a criar novos focos de independência dentro da própria Rússia, o mesmo medo mantem a China, por isso preferem dedicar-se à conquista! Por isso falar de democracia a Putin, torna-se numa verdadeira provocação porque na sua situação, tal como na da China significaria polvorosa nas próprias populações e cedência ao rival. O argumento da democracia vale especialmente para nós europeus onde cada país, depois de muitas guerras, alcançou a sua identidade e, pelo facto, já não temos mais para conquistar; o trágico da aprendizagem é que usemos, muitas vezes, da democracia como armadilha para outros povos.

Também se torna ilusória uma argumentação em termos de nacionalidade quando nos encontramos, também nós, devido ao globalismo e ao processo de organizar o bloco europeu, numa era de superação das ideias nacionais para se poder legitimar a formação de novos blocos ou agrupamentos de nações. Esta realidade leva muita da argumentação de caracter nacionalista a tornar retrógrados e contraditórios os factores que implementam a formação da União Europeia. Facto é que a política globalista (a nível político de ideologia e de economia) em via tem como consequência o desprezo das nações em benefício dos blocos. Por isso pareceria tornar-se atrasada uma tendência de se afirmar um país numa região feita de populações, mas sem ter tido tempo para se formar em povo. Assim a Ucrânia é fomentada também artificialmente em alfobres de grupos joguetes nas mãos dos falcões da NATO e da Rússia. Os moventes da Nato e da Rússia não são os genuínos interesses nacionais de um povo-nação, mas o seu desmantelamento, para satisfação de novos compromissos a fazer pelos figurantes em jogo. Na era globalista e em tempos da formação da EU, tempo mais propício para a desconstrução das nações, falar-se de “dignidade nacional” até parece mal, sobretudo se dito por mentes progressistas!!!

Infelizmente, vistas as coisas de uma perspectiva actual, Putin, para não ser homem de outra era, vai escrever história recente e vai ditá-la aos que se julgam à frente! De facto, o orgulho e a humilhação, suscitam forças que levam a não se resignar e a ideia do globalismo ajuda! Talvez por isso as revoluções pretendam ir sempre à frente, a fazer de luzeiros para o povo e para os que se atrasam! Cada bloco faz a sua leitura própria e nós povo é que teremos de pagar a fava que já se preanuncia num novo aumento das energias. Neste contexto, ser-se popularmente pela política de um bloco ou do outro torna-se um pouco indecoroso.

Falta de cocegas na opinião pública e no povo não faltarão. Uma vez desmantelada a Ucrânia restará o trabalho de sabotagem da Bielorrússia para que esta abra as portas para o Ocidente. Haverá que preparar-nos para engolir sapos e lagartos pois depois de décadas de paz na Europa o que nos espera são guerrilhas, como já conhecemos também dos “assassinos” maometanos através da História.

António da Cunha Duarte Justo

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