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A riqueza alheia

A ignorância é sempre arrogante e frequentemente moralizadora. Mas o caso da peça publicada na internet pela versão francófona da televisão pública (ou com subvenção estatal para o ser) luxemburguesa sobre a vandalização do Padrão dos Descobrimentos esta ignorância pode ir além do onanismo da soberba.

Procurando esconder um passado colonial dos mais sanguinários e exploradores da história, fornecendo homens-de-mão sempre prontos à selvática contenda colonizadora belga, a televisão luxemburguesa, seguramente também levada pela modernice da autoflagelação pelos pecados passados, não concebe outra abordagem que não a da colonização no que toca à relação histórica da Europa com o resto do mundo. Sobretudo se nos estivermos a referir ao período de duas centenas de anos começado no início do século XV.

É óbvio e sabido que Portugal tem um passado colonial onde foram cometidas as maiores atrocidades. Que Portugal tem monumentos marcadamente ligados à sua posição dominante na relação colonizadora. Mas também é sabido que foi a ciência (entre outras a matemática e a da mecânica, num melhor aproveitamento dos ventos) que levaram Portugal a, para usar um chavão perigoso, “dar novos mundos ao mundo”.

A RTL 5Minutes classifica o Padrão dos Descobrimentos como sendo um monumento celebrando o passado colonial português. Os autores do texto, tão assoberbados de certeza, não se dignaram, seguramente, sequer a procurar o sítio internet de tal monumento. Se o tivessem feito teriam visto por entre aqueles aí retractados, além de alguma, pouca, realeza da altura, temos uma maioria de “homens do mar” (navegadores, capitães e pilotos). Temos depois poetas e escritores. Um governador. Três clérigos. Um pintor, um poeta, um matemático, um cosmógrafo.

Não caberá também, talvez, na cabeça dos escribas ao serviço da RTL 5Minutes, pagos também pelos meus impostos, que possa haver portugueses matemáticos ou escritores ou cosmógrafos, quiçá. Que parte de um povo possa, ao oposto dos seus compatriotas antepassados, ver noutros mundos algo mais que uma fonte de riqueza. Que se virem para o sul não só para explorar, antigamente, as riquezas alheias e, agora, a mão de obra barata que outros pagaram para formar, mas também pelo genuíno interesse do saber.

Sim… Portugal tem um passado colonialista. Sim… o móbil da exploração foi a riqueza e a conquista.

Mas aquilo que moveu o grosso destes personagens representados no Padrão dos Descobrimentos foi a Descoberta, e não a exploração da riqueza alheia. O passado dos outros é uma riqueza alheia da qual não é fácil apropriar-se, talvez por isso o desdém.

Mário Lobo

 

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