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A rapariga engravidou de um pastor

a rapariga engravidou de um pastor
um guardador de cabras e estrelas
que de quando em quando deixava
as altitudes e descia à vila

ambos tinham olhos forjados no soro do esplendor
os do pastor castanhos os da rapariga muito azuis
um dia viram-se apaixonaram-se
comeram maçãs juntos
a natureza jubilosa com o idílio
aprimorou e perfez o poema
o amor um caminho que passa no meio de um pomar fulgurante
uma transumância para o infindo

quando no ventre da rapariga
começou a chocalhar um minúsculo coração
um rebanho de felicidade no coração dos futuros pais
o pastor caiu de um rochedo e morreu

durante semanas todo o corpo e alma
da rapariga choraram o amadíssimo pastor
conquanto os seus olhos só o chorassem escondidamente

na aldeia onde sempre anoitecia muito cedo
e a noite era sempre mais longa que o dia
todos sabiam já da queda mortal do pastor
do rebanho abandonado que triste nas montanhas ruminava um luto sombrio
todos sabiam já da queda mortal do pastor
todos porém ignoravam o minúsculo coração a chocalhar no ventre da rapariga

um dia na perdição e desespero da sua viuvez dolorosa
a rapariga vestiu um amargurado vestido preto
ganhou coragem e contou tudo à mãe

a mãe ficou espantada quando a filha lhe disse
dedilhando copioso choro
que não queria nem um menino nem uma menina
– quero um sol mais brilhante que o que brilha no cume das montanhas
a mãe chamou-a louca
– és louca, rapariga, és louca

cumpridas as nove luas
a natureza disse à rapariga
que era chegada a hora de ao mundo dar um ser

cheia de dores e aflições
a rapariga foi parir em segredo na saudade do pomar onde na companhia do seu amadíssimo pastor conhecera o amor e comera as maçãs mais deliciosas da sua vida

no pomar agora repleto de flores
com a ajuda da lua das estrelas e do pastor
a rapariga deu à luz uma menina

deu-lhe o nome de Lúcia

na vila desde então
anoitece mais tarde
e a noite dura menos que o dia

dm