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A pele que habito

“As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem.”

Chico Buarque

 

Muitos dos fardos que carregamos ao longo da nossa vida, bem como muitos dos obstáculos que nos atropelam o caminho, nascem da nossa incapacidade, por vezes, de libertar uma ‘pele’ que já habitámos mas que já não nos assenta mais.

Todos somos mutáveis. Esta é uma lei à qual ninguém é alheio e da qual nenhum escapa. A Natureza é disto prova viva: às árvores é exigida a nudez do Outono e a exuberância da Primavera, com ou sem a aprovação dos olhos de quem isso testemunha. Não devemos, por isso, considerar a mudança como um processo absurdo ou censurável. Mesmo que aqueles que nos rodeiam nos censurem a transformação, o nosso dever para connosco é o de aceitar a fluidez da nossa natureza.

Se à mudança atribuíssemos a conotação de algo perenemente malvado, permaneceríamos enclausurados nas brincadeiras de criança, agarrando ainda os livros da nossa infância, algemados às amizades e inimizades desse passado. Porém, bem sabemos que a vida não é assim. Cada nota da nossa vida segue diferentes compassos. Quando éramos crianças, falávamos como crianças, chorávamos como crianças, sonhávamos como crianças. As estações mudam: agora somos outros, e falamos, choramos e sonhamos como outros. Aos olhos da criança que fomos, reconheceríamos nós a pele que hoje habitamos?

O medo, a angústia, a dor acompanham, vezes sem conta, a mudança. Não devemos, contudo, permitir que esta mutação infinita, estes milhares de ‘eus’ em que nos tornamos, nos suscite estas emoções. O caso de ‘Diogo’ (nome fictício) talvez ajude a ilustrar o impacto negativo da rejeição da mudança. Diogo era um homem de meia idade de grande amabilidade, com um coração cheio de amor. Contudo, carregava uma tristeza aguda contra uma certa injustiça que o assolava. O seu único filho saíra de casa para estudar no estrangeiro. Com recurso a um leque diverso de métodos terapêuticos, dando ênfase à procura de renovação e à aceitação da sua nova vida, foi possível ao Diogo compreender que a sua revolta contra a vida, os seus apelos contra a injustiça, não passavam de manifestações da sua relutância em aceitar que a sua vida como pai sofrera uma forte mudança. O processo que Diogo necessitava agora de assumir baseava-se então na aceitação de que a sua construção digna de um bom ninho familiar havia permitido ao seu filho abrir as asas e partir para uma margem distante. Esta tarefa, contudo, havia terminado. Era altura de despir esta pele e desenhar uma nova. As situações mudaram: assim sendo, também Diogo precisava de mudar.

Cessou então a sua rejeição interior, que gerava ódio próprio, e iniciou uma liberdade por descobrir. A liberdade que exigia a libertação do passado e a aceitação de que somos parte de uma Natureza sempre em movimento e, por isso, de que também nós somos esse movimento.

 

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