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A insaciabilidade de “Smeágol-Trump”: Nobel como Anel, Gronelândia como “meu precioso”

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Há ambições que se anunciam como estratégia — e há obsessões que se mascaram de destino. Donald Trump parece ter escolhido viver na segunda categoria: a do homem que confunde reconhecimento com legitimidade, prémio com mandato, aplauso com razão de Estado. E é aqui que a metáfora de Smeágol deixa de ser piada e passa a ser chave de leitura: quando o “Anel” é o Nobel da Paz, tudo o resto — alianças, soberanias, tratados, vidas — se torna cenário secundário, mero terreno para a caça ao brilho.

O episódio recente é tão simbólico quanto inquietante: Trump ligou a sua pressão sobre a Gronelândia — com ameaças e chantagem económica sobre países europeus — ao facto de não ter recebido o Nobel da Paz de 2025. Numa mensagem que circulou em círculos diplomáticos, terá mesmo afirmado que já não se sente obrigado a “pensar puramente na paz” por não ter sido distinguido. A frase é mais do que birra: é uma confissão política. A paz, para ele, não é princípio; é moeda. Não é dever; é transacção.

E como em Tolkien, a lógica do “meu precioso” não tolera limites. A Gronelândia surge como objecto de desejo antigo — mas agora reaparece embrulhada em linguagem de segurança global, competição no Árctico e “interesses nacionais”. Só que o método não é o da diplomacia; é o da pressão. A ideia de condicionar parceiros europeus com tarifas e exigências relacionadas com a compra/controlo de um território autónomo sob soberania dinamarquesa aproxima-se menos da negociação e mais do ultimato. Se a paz é prémio, então o conflito é ferramenta. Se o Nobel não vem, a contenção deixa de “compensar”.

O detalhe mais perverso desta narrativa é a inversão moral: Trump apresenta-se como credor de gratidão universal (“eu terminei guerras”, “eu mereço”), e transforma a recusa do prémio numa espécie de quebra de contrato… como se o mundo lhe devesse, por defeito, um troféu. Ora, o Nobel da Paz não é um selo de propriedade sobre a virtude — e muito menos um mecanismo de remuneração retroactiva. Em 2025, o prémio foi atribuído a María Corina Machado, e o próprio debate público sublinhou que Trump não foi distinguido, apesar de insistir que o merece.

Aqui, a comparação com Smeágol não é apenas estilística — é estrutural. Tal como a criatura, Trump parece aprisionado por uma ideia fixa que corrói tudo o resto: relações externas, coerência estratégica, até a noção elementar de responsabilidade. A frase “sem prémio, não tenho dever de zelar pela paz” (no espírito do que foi reportado) é um rasgão no verniz civilizacional. Porque um Presidente não é um concorrente a galardões; é o depositário temporário de poder real — e o poder real tem consequências reais.

E há ainda outro sinal preocupante: a forma como alguns discursos paralelos desvalorizam “as minudências do direito internacional” em favor da força e da necessidade, como se soberania fosse uma etiqueta negociável e não um pilar de ordem. Quando esta mentalidade se cruza com uma obsessão por consagração pessoal, o resultado é perigoso: não se toma decisões para reduzir riscos — toma-se decisões para construir narrativa. E, depois, exige-se que o mundo aplauda.

No fim, sobra a pergunta que Tolkien colocaria sem cerimónia: quem governa, afinal — o homem ou o Anel? Se a paz depende de um prémio, então nunca foi paz: foi encenação. Se a estabilidade europeia pode ser posta a render numa disputa de ego, então estamos perante uma política externa feita de impulsos, onde o centro não é a segurança colectiva, mas a auto-imagem.

A insaciabilidade não é apenas querer mais. É a incapacidade de reconhecer limites. E quando o “meu precioso” é um Nobel — e a Gronelândia aparece como peça de tabuleiro para provar grandeza — o risco maior não é Trump não ganhar o prémio. O risco é o mundo pagar a factura da sua frustração.

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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