A importância de reforçar a presença económica de Portugal na Austrália
Num contexto internacional cada vez mais interligado e competitivo, as relações económicas entre países exigem não apenas proximidade diplomática, mas também estruturas eficazes que permitam transformar oportunidades em resultados concretos.
Portugal e a Austrália mantêm uma relação estável e com potencial de crescimento. No entanto, na minha opinião, esse potencial só poderá ser plenamente concretizado se for acompanhado por instrumentos que facilitem a ligação entre empresas, promovam o investimento e apoiem a internacionalização.
Durante anos, a Austrália contou com uma Câmara de Comércio Luso-Australiana ativa, que assegurava uma representação relevante de empresários e desempenhava um papel importante na dinamização das relações económicas bilaterais. O seu desaparecimento, no contexto da pandemia, deixou uma lacuna que hoje se faz sentir, sobretudo pela ausência de uma estrutura agregadora e promotora de iniciativas empresariais.
A criação ou reativação de um organismo desta natureza exige investimento, quer financeiro, quer em tempo e dedicação por parte de quem se disponibiliza para o construir. Ainda assim, a experiência demonstra claramente a importância destas plataformas.
Na minha deslocação a Macau, tive a oportunidade de contactar com a realidade da AICEP naquele território, onde a sua presença contribui de forma clara para a promoção de Portugal além-fronteiras. Este tipo de atuação evidencia como uma estratégia estruturada pode fazer a diferença na afirmação económica de um país.
Por outro lado, o atual enquadramento internacional, nomeadamente no âmbito do aprofundamento das relações entre a União Europeia e a Austrália, vem reforçar a necessidade de uma presença institucional mais consistente. Num momento em que se discutem acordos comerciais e se abrem novas oportunidades, torna-se essencial garantir que Portugal está devidamente posicionado para acompanhar essa dinâmica.
Existem, no entanto, desafios concretos que ilustram bem essa necessidade. As elevadas tarifas alfandegárias aplicadas à importação de produtos alimentares, como o bacalhau, continuam a representar um obstáculo significativo. Acresce ainda a questão da importação da sardinha, que, por via de regulamentação do Governo australiano, se tornou praticamente impossível. Estes são exemplos claros de barreiras que afetam diretamente os empresários e a promoção de produtos portugueses neste mercado.
Estou convicta de que, com a existência de uma Câmara de Comércio estruturada e representativa, estes processos poderiam ter tido um enquadramento negocial diferente, mais articulado e com maior capacidade de influência junto das entidades competentes.
A reativação de uma Câmara de Comércio Luso-Australiana, em articulação com um reforço da presença da AICEP, surge assim como uma necessidade estratégica para os empresários portugueses na Austrália. Trata-se de criar condições para apoiar empresas, fomentar parcerias e assegurar que Portugal não fica à margem das oportunidades que este mercado oferece.
Mais do que uma questão institucional, esta é uma questão de visão: estar presente, acompanhar e investir nas relações económicas já existentes, ao mesmo tempo que se potenciam novas oportunidades.
Sara Fernandes
