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A Humanidade ao espelho

Eles não quiseram escutar a menina
riram-se dela, disseram:
‘O que estás para aí a dizer?
O progresso não pode parar!’
Riram-se dela e das suas tranças
quando gritava entre lágrimas
“temos de parar, temos de mudar
o planeta está a agonizar!”.
Riram-se dela e disseram:
“O Mundo quer lá saber
o que fazemos não tem impacto
o mundo é velho, o mundo tem ciclos
isto é apenas um ciclo a mais”.
Então do Oriente veio uma estrela
de que todos se puseram a falar
na televisão, na internet e nos jornais
e tudo o que não podia parar, parou afinal,
o barulho das obras, as máquinas das fábricas
o fumo das centrais nucleares
o fluxo ininterrupto dos automóveis e dos aviões
as viagens de negócios e as de turismo também
os países fecharam os negócios e as portas
ínconcebível, impensável, impossível!
vociferaram a Bolsa e os patrões.
E onde há meses não havia dinheiro
de repente surgiu dinheiro, muito dinheiro
de onde, como, quem fez?
se há assim tanto dinheiro
e pode ser fabricado do nada
porque é preciso lutar por ele
e sofrer por ele
e morrer por ele?
Inimaginável, incrível, um alívio
sussurraram o capital e a ganância
esfregando as mãos.
E, no entanto, tudo parou, tudo teve de parar
o que era indispensável tornou-se supérfluo
o que era impriscindível passou a ser acessório
as contas, as facturas, os créditos
o emprego, a carreira, a promoção
as promoções, as compras, o lucro
e o que era irrelevante tornou-se essencial
as pessoas tiveram que parar
e olhar-se de repente ao espelho.
As pessoas sem tempo ficaram de repente
com tempo de sobra
a advogada que só via os filhos à noite
quando chegava a casa e estes já estavam a dormir
começou a ser acordada pelos filhos
aos saltos em cima da cama
ela nunca tinha visto os filhos assim tão felizes
‘vais ficar para sempre em casa, mamã?
muito tempo, mamã? mil anos, mamã?
O homem da agenda sobrelotada
que nunca podia falar com o pai
começou a ver todas as suas reuniões e teleconferências
prioritárias, urgentes, inadiáveis
adiadas, anuladas, pospostas
sine die, até nova ordem, até quando?
No seu planning inane sobrava um único item
a piscar, que já tinha três meses:
‘aniversário do pai – telefonar ao pai!’
O homem da agenda teve de deixar
de se preocupar com vendas e aquisições
teve de pôr o seu império em stand-by
e viu o sorriso do pai outra vez
um sorriso cansado, velho, tão velho (que idade tem?)
mas um sorriso alegre de ver o filho
e os olhos pequeninos a brilhar
“cortaste a barba, filho, estás tão bonito?”
E o homem da agenda sobrelotada
chorou pela primeira vez desde 2008.
Então as ruas ficaram de repente vazias
os centro comerciais e as lojas 24/24 fecharam
as estradas desertas, as cidades fantasma
até a cidade que nunca dorme
teve que descansar pela primeira vez
as praias ficaram quase virgens novamente
as florestas respiraram, os mares também
as nuvens da chuva que durava há três meses
dissiparam-se de um dia para o outro
e o homem pode ver o céu azul outra vez
ele nunca foi assim tão azul, foi?
ele nunca esteve azul assim tanto tempo, não?
E os homens e as mulheres
tiveram que redescobrir velhas palavras
como casa, lar, família
silêncio, aborrecimento, paciência
e darem-se conta que não eram coisas chatas.
E tiveram que inventar palavras
para dar novos significados
a palavras que já pouco usavam como
altruismo, entreajuda, empatia,
solidariedade, partilha, bonomia
comunidade, cooperação, colaboração,
benevolência, bondade, abgnegação
brandura, candura, generosidade,
bondade, simplicidade, frugalidade
indulgência, verdade, decência,
renúncia, desinteresse, resiliência
apego, desprendimento, amabilidade
coração, amor, amizade
idealismo, utopia, beleza,
fauna, flora, Natureza
planeta, mundo, Humanidade.

JLC27032020

(Imagem: WallpaperFlare)

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