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A história da mulher mais famosa do cinema

Se há um certo leão famoso, temos também a “senhora da tocha”, que aparece em centenas de filmes: ela é a imagem da Columbia Pictures e abre todos os seus filmes desde 1922.

Ultimamente, conhece-se a identidade da última delas, mas quanto às anteriores só há rivalidade e lendas… e como já conhecem bem o meu lado de desvendar e divulgar episódios invulgares, aqui me têm. Por um lado, por adorar a 7º arte, por outro por achar curioso desvendar o que está por detrás desta emblemática figura. E escrevo este post no dia em que Doris Day, rosto e voz da era clássica de Hollywood que gostava de finais felizes, morreu, com 97 anos. “Calamity Jane” (1953), o seu filme preferido em toda a sua carreira, o “O Homem que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock, e a sua interpretação do tema “Whatever Will Be, Will Be (Que Sera, Sera)” são alguns dos títulos pelos quais será eternamente lembrada. E, não tendo a ver directamente com Doris, mas com a era clássica de Hollywood, faço-o também em jeito de homenagem.

Esta mulher em questão aparece apenas 18 segundos ao início de cada filme, mas faz isso em todos os da sua chancela. No ano passado, estreou em 13 e há uma forte probabilidade de que essa seja a pessoa que mais tenhamos visto na história do cinema. Porém, quase ninguém sabe como se chama ou quem é. Apenas a conhecemos como mulher da tocha. E embora o logótipo tenha mudado várias vezes nos quase 100 anos de história dos estúdios da Columbia Pictures, a figura da “senhora da tocha” permanece inalterada (à excepção daquela ocasião em que, no início do delírio disco-kistch “Thank God It’s Friday”, filme de 1978 e a maior glória da Motown, a “senhora da tocha” entrava a dançar).

De facto, o logótipo da Columbia Pictures é reconhecido por espectadores em todo o mundo. Está (quase) ao nível do leão que ruge da Metro Goldwyn Mayer e anda de mãos dadas com o Castelo na abertura dos filmes da Disney, com o escudo da Warner Bros., com o globo terrestre da Universal Studios ou com a montanha da Paramount (que, dizem, trata-se do pico Artesonraju, do Peru). O que é menos conhecida é a história por trás da enigmática “senhora da tocha” e, em alguns casos, até mesmo a sua identidade.

Apenas se sabe, com certeza a 100%, quem é a mulher que apareceu no logótipo da empresa nos últimos 27 anos. Em 1992, a Columbia Pictures pediu ao pintor Michael Deas, conhecido pelos seus retratos de presidentes e estrelas do cinema clássico, que reformulasse a popular imagem. Para isso, Deas pediu a ajuda da fotógrafa Kathy Anderson, para que esta lhe desse imagens de referência. Em Julho de 1991, Kathy pediu a uma de suas colegas de trabalho num jornal de Nova Orleães, a designer gráfica Jenny Joseph, de 28 anos, que posasse no seu pequeno apartamento diante de um pano preto, usando uma túnica e segurando uma tocha. Jenny estava longe de imaginar que aquela imagem seria a mais vista nos cinemas de todo o mundo… Dizem ter sido escolhida porque tanto Michael, como Kathy, achavam que se parecia em demasia com a mulher da tocha que aparece nas versões anteriores do logo da famosa produtora. Jenny não era modelo, como contou a própria Kathy: nunca tinha posado antes para uma câmara, nem voltou a fazer tal depois. Mais tarde, Jenny mudou de Nova Orleães para o Texas, casou e teve filhos. Crianças que cresceram tranquilamente com a ideia de que sua mãe aparecia sempre nos cinemas antes do início de alguns dos filmes de maior bilheteira de cada ano. Uma curiosidade: algumas pessoas acharam que a nova mulher era a actriz Annette Bening, por encontrarem uma certa semelhança com ela. Foi um rumor que circulou em Hollywood por alguns anos. Em alguns sites, Bening ainda aparece como uma das “senhora da tocha”, porém, não é.

Mas quem apareceu antes nessa mesma posição? Resulta muito complicado determinar o nome das mulheres que seguraram antes a tocha, embora o cinema seja uma indústria na qual tudo fique gravado e registado para a memória. Contudo, de acordo com a Columbia Pictures, não há documentação plausível para comprovar se algumas das mulheres que afirmam ter sido a ”senhora da tocha” estão a dizer a verdade…


Evelyn Venable, que afirmava ter sido a modelo do logo da Columbia Pictures em 1939, numa imagem publicitária tirada em Londres em 1935

Uma delas poderia ser Claudia Dell. Aparece numa autobiografia de Bette Davis (“The Lonely Life”, 1962), onde a actriz vencedora do Oscar se refere a uma “jovem Claudia Dell, cuja imagem foi usada como logotipo da Columbia Pictures durante anos”. Dell (1910-1977) foi uma actriz de cinema e televisão que nunca chegou a Hollywood e estagnou em filmes B, mas casou-se com homens poderosos na Califórnia e levou uma vida abastada. Outra seria Evelyn Venable (1913-1993), actriz mais conhecida pelo seu papel em “Death Takes a Holiday” (1934), que na década de noventa teve uma versão bastante livre com o título “Meet Joe Black”, protagonizada por Brad Pitt. Ela afirmou ter sido modelo para o logotipo da Columbia em 1939. O site IMDB, uma das páginas de referência para cinéfilos, considera o dado confiável.


Evelyn Venable em 1934, tal e qual a mulher do logo da Columbia

Depois, vem Amelia Batchler (1908-2002), que numa reportagem da revista norte-americana “People” é apresentada como a mulher que posou para o logótipo da tocha durante anos, desde 1936. “Um dia, Harry Cohn [que foi o primeiro presidente da companhia] disse-me: ‘Vá para o vestiário, eles vão vesti-la. Há um artista italiano que a quer pintar. Isso foi em 1935 ou 1936. Eu na altura era uma artista contratada e por 75 dólares por semana fazíamos de tudo, excepto esfregar o chão”. Segundo o seu relato, Amelia nunca perguntou para que serviria aquela pintura. Descobriu, alguns anos mais tarde, que a sua imagem aparecia no começo de todos os filmes da Columbia. “Direitos de imagem? Está a brincar? Não pagavam nada disso a ninguém naquela época. Isso foi muito antes de haver sindicatos”. Amelia disse ainda que bem mais tarde, quando a identidade da “senhora da tocha” começou a intrigar a imprensa e os espectadores, telefonou para a Columbia a dizer que era ela a própria, no caso de que quisessem escrever algum tipo de história ou comunicado sobre isso. Mas a rapariga que a atendeu não acreditou nela por uma simples razão: dezenas de mulheres tinham telefonado antes a dizer a mesma coisa.


Jane Bartholomew, que afirmou ser uma das modelos que inspirou o logótipo da Columbia Pictures, posa no quarto, numa imagem de 2001

E uma dessas outras raparigas poderia ser Jane Bartholomew. O prestigioso jornal norte-americano “Chicago Sun Times” considerou boa a sua história e publicou uma reportagem sobre ela. Segundo Bartolhomew, o seu rosto é o que aparece nos anos quarenta (o que confrontaria a sua história com a de Amelia Batchler) e foi recrutada, como no caso anterior, pelo chefe Harry Crohn. Isso aconteceu em 1941, de acordo com a sua história, e ela recebeu 25 dólares. O jornal acompanhou a reportagem com uma imagem realmente bonita: a já idosa Jane posa no seu quarto de uma casa de repouso, enquanto atrás dela, penduradas na parede, aparecem várias fotografias da que provavelmente seria ela (ou não) na sua personificação da “senhora da tocha”.

Porém, o que resulta curioso nesta história é que todos os relatos poderiam ser verdadeiros: o logo da Columbia Pictures é uma pintura e os diferentes artistas aos quais o estúdio a encomendava pediam fotografias como referência, tal como aconteceu no episódio de 1992. Não há quaisquer dúvidas quanto à última encarnação da mulher da tocha porque todos os envolvidos ainda estão vivos e até existem vídeos da sessão. Mas antes de Jenny Joseph, será difícil conhecer a real identidade das outras: todas faleceram. Poderia ser possível que nos anos trinta ou quarenta o artista se inspirasse em diferentes fotografias para desenhar a sua “torch lady”, como é conhecida em inglês a figura que abre todos os filmes da Columbia Pictures. Essa clássica figura que, sem nome, sem dados e sem história, é mesmo a mulher que mais vezes vimos quando a luz do cinema se apaga.