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À glória do elevador

© eduarda macedo

Com a cabeça feita picado para pastéis e num estado de ansiedade que só conheci em vésperas de exames na faculdade, não consigo escrever. Adeus, meus belos projetos de crónicas quinzenais – para o Bom Dia! Adeus, tu, livro que te arrastas pelos fundos das gavetas há dois anos! Adeus, sonetos, novelas surrealistas, contos eróticos e histórias infantis insurretas! Adeus, companheiros inventados, perdidos na bruma de uma indisciplina que me obriga a não me sentar à secretária e simplesmente escrever, como talvez fizesse se o mundo à minha volta não existisse ou fosse outro.

É-me difícil conciliar o sono e nem aplicações de meditação nem histórias de embalar me valem. Fito a escuridão com olhos que se negam a fechar-se, oiço os ruídos que a noite acende na rua e escuto o latido do meu próprio coração através de uma espécie de estetoscópio maléfico incrustado na minha cabeça. E, se fecho os olhos, é como se estivesse sentada numa sala de cinema.

Esta noite, insónia vencida pela exaustão, dei comigo às portas de uma feira popular, a Schueberfouer. Luís, Maria Lúcia e Carlos, os convidados de honra, chegam esbaforidamente atrasados, seguidos por uma gulosa comitiva. Luís precipita-se a tirar do bolso uma tesoura dourada que, com um rasgado sorriso, corta uma fita tricolor e dá início aos festejos, para gáudio de uma multidão ululante. O anfitrião, um manjerico de cravo amarelo espetado na cabeça convida então os visitantes para uma visita guiada às atrações, acompanhada de sucessivos brindes à amizade entre os povos.

Louco por carrinhos de choque desde criança, Luís aceita fazer uma selfie com o operador, que abraça comovido, tais as parecenças do moço com Tony Carreira. É apanhado em flagrante por Cromo, um ativo da Trumplândia que se colara à comitiva disfarçado de boca de incêndio. Imediatamente apela à sublevação das massas pelas redes antissociais: Escândalo!! Luís estabelece contactos com o mundo da Fórmula 1 à conta do povo!! Aborrecido, Luís pede à segurança que vigie o Cromo, que, todavia, já tinha traído a sua presença devido a um transbordante entusiasmo pelo tiro aos patos, uma incontrolável fome de hambúrgueres e ardentes tendências piromaníacas.

Sob a grande roda, um grupo de alforrecas brinca ao jogo das cadeiras, disputando assim a concessão dos poucos carroceis disponíveis. Subitamente, um extraterrestre disfarçado de Antonio Banderas rapta as cadeiras e semeia pioneses no chão. Ouvem-se ais lancinantes e as alforrecas, cravadas de picos, rebentam como balões e desfazem-se numa pasta nauseabunda pejada de sacos azuis. Banderas dá às de vila-diogo. Uma pena!

Entretanto, a grande tesoura dourada vem pedir-me asilo político. Temia ser confiada ao operador da montanha russa. Perante tal ameaça, concedi-lho imediatamente e até lhe ofereci um visto gold. Enquanto isso, o pusilânime Carlos estudava discretamente os cabos que sustentavam as gôndolas da grande roda. De coração apertado, aceita o convite do manjerico para entrar numa delas. Aconchega-se a Luís e Luís aconchega-se a Cromo que, já apaziguado por viajar em tão boa companhia, trinca mais um hambúrguer.

Foi então que deu o amoque à grande tesoura dourada, a quem faltou a resiliência para suportar o pivete a hambúrgueres, a voz de Carlos e o discurso de Luís, que, do alto da roda, exigia que ninguém fizesse aproveitamentos políticos daquela situação. E zás!! Cortou o cabo da gôndola em que viajavam os três e o manjerico, desaparecendo para todo o sempre por entre o fogo de artifício.

Do hambúrguer do Cromo sai uma fatia de bacon que, qual bumerangue, corta o pescoço a Luís, que ficou sem pinga de sangue. «Socorro!», grita esganiçado. Mas ninguém lhe acudiu porque, na ausência de um responsável, ninguém se responsabilizou. Acabou por cair ao rio embrulhado na bandeira nepalesa que lhe oferecera um hindustani do bairro da Mouraria em sinal de gratidão pelo acolhimento que lhe reservara a polícia lisboeta. Foi salvo das águas por um punhado de bandoleiros. «Passa para cá a estratégia da educação para a cidadania, ó bronco!!» – disseram. Luís choraminga «Não querem antes os fundos comunitários??». «Não!» – rosnaram os bandidos – «A estratégia ou a vida!! Luís choramingou uma esmolinha. Deixaram-lhe o empreendedorismo.

Não longe, Cromo vomita sucessivos hambúrgueresenquanto tenta salvar a nado a lei dos estrangeiros. A bóia mais próxima era afinal um cisne negro que, apesar de estar a treinar para atravessar o Mediterrâneo, caminho seguro para a imigração, preferiu afogar-se ali mesmo arrastando consigo o Cromo e a lei dos estrangeiros ao som do hino do Hindustão. Alheado do que se passava à sua volta por falta de óculos, Carlos baloiça ingloriamente no cabo partido da gôndola, enquanto o manjerico, já sem cravo, aguardava o relatório que determinaria as razões do acidente. Até lá, Carlos está condenado a aulas de canto diárias.

Quanto a Maria Lúcia, conversava animadamente com a imprensa local, relatando pormenorizadamente a sua experiência no comboio fantasma e tecendo rasgados elogios a João, o Cego, que, ao fundar aquela feira no ano da graça de 1340, demonstrara inusitada clarividência, notável capacidade de planeamento e a flexibilidade necessária para contemplar adaptações à mudança dos tempos e das vontades, bem como uma invulgar preocupação com a sustentabilidade.

Atento aos últimos desenvolvimentos, um grupo de intelectuais discutia sobre se poderiam publicar textos e caricaturas satíricos em período eleitoral, não fossem estes ofender alguém e exacerbar tensões num momento tão delicado da vida da nação. Perguntei-lhes a que nação se referiam, mas não responderam com receio de serem enviados para a apanha do mirtilo na Beira Baixa.

Recordo ainda os três bacorinhos rosadinhos, rodeados de burricos cinzentos que lhes lambiam as patas, zurrando docemente. «Então?» – perguntaram-me -«Ainda acreditas em milagres?». Empoleirado numa mata de eucaliptos, João, o Cego, repetia desconsoladamente «Em terra de cegos, quem tem um olho é rei…».

Acordei, não sei se banhada em suor, se lavada em lágrimas. A meu lado, no meu caderno de capa preta comprado duas semanas antes e ainda virgem quando me deitei, estava esgaratujado este texto. Fechei-o. Junto a ele, estava a caneta de tinta permanente, que, entretanto, deixara uma mancha sépia no lençol branco. Tapei-a.

Levantei-me e fui passar a cara por água. Abri a janela e fechei-a novamente. Ainda me vinha às narinas o perfume amargo das serranias consumidas pelo fogo. Fiz um café. Só então abri o caderno e li o que estava escrito. Tinha sido mesmo um sonho.

Eduarda Macedo

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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