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40 anos de União Europeia: o milagre dos fundos no país das aparições 

© lusa

Portugal celebrou este ano 40 anos de adesão à União Europeia. Quarenta. Quatro décadas. É uma idade bonita, redonda, aquela fase da vida em que já não se acredita que os políticos dizem a verdade, mas ainda se acredita que o Benfica vai à Liga dos Campeões. É uma idade bonita, redonda, com a maturidade de quem já viu muita promessa falhada, mas ainda acredita em milagres — sobretudo quando vêm de Bruxelas, sob a forma de envelope recheado e PowerPoint animado. E se há coisa que Portugal tem feito bem nestes 40 anos, é saber viver na UE com aquele jeitinho típico de quem está sempre “à rasquinha”, mas nunca deixa de aparecer ao jantar de família com um vinhozinho do Alentejo e um ar de quem não sabe o que se passou com o IRS.

Entrámos na CEE em 1986 com o entusiasmo de quem acredita que agora sim, “é desta”. A ideia era simples: nós trazíamos bacalhau, simpatia e sol, e a Europa trazia estradas, cheques e exigências com nomes em alemão. No fundo, foi como um casamento arranjado: nós precisávamos de estabilidade financeira, eles precisavam de um sítio barato para passar férias.

Desde 1986, vivemos uma relação intensa com a Europa. Um verdadeiro casamento de conveniência: nós trazíamos fé, sol e bacalhau, e eles traziam regras, dinheiro e uma ligeira impaciência connosco. E como bons portugueses, respondemos com o que fazemos melhor: damos um jeitinho, sorrimos, e construímos um pavilhão multiusos num monte com três habitantes.

Desde então, Portugal tornou-se um verdadeiro especialista em receber fundos comunitários. Há países que os investem em ciência, educação, desenvolvimento industrial. Nós preferimos a abordagem mais espiritual: rotundas com esculturas abstratas e museus sobre temas que ninguém pediu. Há em Portugal um Museu da Batata. Não é metáfora — é literal. Mas ainda não há um museu do “Como é que gastámos 130 mil milhões sem aumentar a produtividade”.

Nestes 40 anos, fomos abençoados com uma chuva de fundos europeus. A quantidade foi tão generosa que só pode ter sido milagre. E como em Fátima, há quem diga que viu mesmo: viu nascer rotundas em lugares sagrados, zonas industriais onde o único movimento é o do mato a crescer, e ciclovias em vilas onde só há dois ciclistas — e um deles é vereador.

Construímos mais metros quadrados de auditórios, centros de formação e zonas industriais do que alunos, formandos ou empresas. Em várias aldeias, há mais projectos financiados por fundos do que habitantes. Temos ginásios em freguesias onde a única actividade física é apanhar couves e correr atrás das galinhas. E sim, o Wi-Fi gratuito chega a quase todos os largos de igreja, mas a cobertura de rede continua a desaparecer misteriosamente sempre que se tenta ligar para a Segurança Social.

Investimos forte e feio em centros de congressos, incubadoras de startups em localidades sem jovens, e ginásios financiados pelo FEDER onde só treina o presidente da junta. Se não é milagre, é pelo menos criatividade divina aplicada à contabilidade.

A fé no desenvolvimento, aliás, foi uma constante. Com cada novo quadro comunitário, vinha o mesmo discurso: “Agora é que vai!” — dito com o fervor de uma procissão e a convicção de quem já ouviu isso no último ciclo e no anterior. A diferença é que agora temos auditórios com bons assentos. Para esperar, ao menos que seja com conforto.

Mas não se pense que só soubemos receber. Não, senhor. Portugal também deu muito à Europa: deu peixe, trabalhadores, técnicos de construção civil altamente especializados que emigraram para a Alemanha, e políticos que falam francês com sotaque de Vila Nova de Gaia. Demos José Manuel Durão Barroso à presidência da Comissão Europeia, um feito só comparável a ter oferecido um garrafão de vinho carrascão num jantar de Estado — a intenção foi boa. Exportámos engenheiros, médicos, e adolescentes altamente qualificados em fugir para o estrangeiro antes de acabarem o mestrado. A União Europeia deu-nos regras e reformas; nós retribuímos com simpatia e promessas de que “ainda estamos a estudar a melhor forma de aplicar os fundos”.

Claro que, como em qualquer relação duradoura, houve altos e baixos, houve momentos difíceis. A Troika, por exemplo, foi como uma peregrinação penitencial. Passámos fome, frio e cortes, e no fim não vimos a luz — mas ouvimos Passos Coelho a citar números. Ainda assim, sobrevivemos. Porque o português, além de resiliente, é crente: acredita na Nossa Senhora, no Cristiano Ronaldo e na possibilidade de fazer mais com menos, desde que a Europa continue a enviar aquele dinheirinho bento. Tivemos a crise do subprime, os PECs, os cortes salariais e um memorando de entendimento que era mais castigo do que ajuda. Foi o equivalente europeu a aquele tio que empresta dinheiro, mas depois liga todos os dias a perguntar porque é que estás a jantar fora se ainda não lhe pagaste.

A economia portuguesa, nesses momentos, parecia aquela avó que está sempre a dizer “isto agora é só crises”, mas depois saca de um bolo de laranja e um envelope com 50 euros. E nós sobrevivemos, claro. Porque somos resilientes. Porque somos criativos. E porque a Comissão Europeia tem um fraquinho por nós, talvez porque acha fofo como conseguimos desbaratar milhões com tanto charme e sotaque.

A adesão à União Europeia também nos trouxe coisas que não se vêem, mas que estão cá: direitos dos consumidores, legislação ambiental, normas alimentares, segurança laboral. Algumas empresas portuguesas até começaram a seguir essas regras, principalmente quando alguém da ASAE aparece com colete refletor.

No fundo, 40 anos depois, ainda estamos num eterno “agora é que vai”. Agora é que vamos apostar na ferrovia. Agora é que vamos reindustrializar. Agora é que vamos fixar os jovens, atrair cérebros, reter talento. O problema é que o “agora” anda a ser adiado desde 1986, e o talento, coitado, já está em Londres, Berlim ou a dar aulas online em Singapura.

Hoje, celebramos quatro décadas de uma relação que, como qualquer casamento longo, já tem rotinas, algumas mágoas, mas também gratidão. Sim, estamos mais modernos. Sim, temos autoestradas, eólicas, saneamento e rotundas com esculturas que parecem alienígenas arrependidos. Mas também temos a sensação constante de que, apesar de tudo, ainda não chegámos lá.

E porquê? Porque talvez o milagre não esteja só em receber os fundos, mas em saber o que fazer com eles sem os perder em concursos públicos, pareceres jurídicos e ajustes diretos mais misteriosos do que os segredos de Fátima.

Portugal continua a ser o País das Aparições. Umas religiosas, outras orçamentais. Entre promessas de convergência e planos de resiliência, resta-nos manter a fé — e o NIB sempre pronto. Porque no fim, tal como nas grandes romarias, o importante não é chegar a tempo. É ir indo, de vela na mão e boletim de candidatura no bolso.

Ainda assim, sejamos justos: sem a UE, provavelmente ainda estávamos a fazer filas para o pão, a vender camisas de flanela à porta de França e a ouvir debates sobre a regionalização sem fundos para as regiões. Com a UE, fazemos tudo isso — mas com autoestradas e croissants de chocolate do Lidl.

Portanto, parabéns, Portugal. Quarenta anos depois, continuamos a acreditar no milagre do progresso financiado por Bruxelas. Temos mais diplomas, mais rotundas, mais plataformas digitais (que não funcionam), mais zonas industriais vazias, e mais uma bela fatia de fundos para o Plano de Recuperação e Resiliência. Porque sim, agora é que vai.

Talvez.

Se não chover.

E se não houver eleições autárquicas este ano.

António Ricardo Miranda

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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