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“Tanta gente, Mariana” de Maria Judite de Carvalho

Ficha técnica

Título – Tanta gente, Mariana

Autora – Maria Judite de Carvalho

Editora – Ulisseia

Páginas – 158

Opinião

Sinto-me só, mais do que nunca, ainda que sempre o tivesse estado.

Sempre.” (pág. 19)

Antes de redigir esta opinião, quis conhecer um pouco melhor esta autora que até há bem pouco tempo desconhecia por completo. Fiquei a saber que não teve uma infância feliz, que perdeu a mãe e o irmão quando era muito pequenina e que esteve casada com um dos nossos homens das letras mais influentes – Urbano Tavares Rodrigues –, por quem sempre tive uma empatia muito grande, nascida apenas e só por causa do seu sorriso e da sua afabilidade. Vi algumas das suas fotografias e outros exemplos da sua bibliografia. E não consegui conter as lágrimas ao confrontar o que a internet me mostrou com os excertos que fui anotando no meu caderninho, dos quais aquele que deixei no início desta opinião é um exemplo claramente doloroso e taxativo do sentimento que percorre a obra Tanta gente, Mariana.

Parti para a sua leitura quase às escuras. Fi-lo de propósito. Aceitei sem hesitar a sugestão da Bárbara, do blogue I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out, trouxe o livro da biblioteca e só me dei conta de que ele era uma coletânea de contos e não um romance quando já estava embrenhada na leitura daquele que lhe dá título e que é, sem dúvida, o melhor de todos os oito que compõem a obra.

Tenho consciência de que não irei ser capaz (pelo menos não totalmente) de pôr em palavras o impacto que tiveram em mim todos os contos, sobretudo o da Mariana, uma mulher com apenas trinta e seis anos e que se sente velha, gasta, abandonada, acompanhada apenas por uma solidão muito, muito só e que se encontra num quarto arrendado à espera de uma morte já anunciada – “É o meu fim, o único. (…) Pela primeira vez alguém me vem buscar, alguém me procura. Por que não hei-de estar feliz, eu, a escolhida?” (pág. 68)

É impossível alguém pôr os olhos neste excerto e não se sentir encolhido de estupor, não sentir-se abalroado pelo mundo e não querer desesperadamente estender a mão e mitigar, dessa forma, a dor e a solidão de uma mulher que, aos quinze anos, ouve da boca do seu próprio pai algo tão cru como – “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode.” (pág. 20) De um soco destas proporções ninguém consegue recuperar. Como poderia?

Todo o conto é deveras avassalador e uma bofetada que quase nos arranca a cabeça. Concordo com todos aqueles que referem que ninguém escreve sobre a solidão como o faz Maria Judite de Carvalho. A sua escrita, onde reina o monólogo interior e uma fria consciência de quem somos e daquilo que nos rodeia, fere como um punhal e, por muito que me tenha sentido trespassada, adorei a experiência, já que eu, como bem sabem, busco de forma obsessiva a dor literária, principalmente porque aprendo muito com ela e saio de cada leitura mais conhecedora e atenta.

Quanto aos outros sete contos, são todos bem mais pequenos que o que abre a obra homónima. São protagonizados por homens e mulheres cujas vidas se assemelham, também elas, a um beco sem saída, esburacado de dor, de perda, de oportunidades não concretizadas e de desesperança. Não me avassalaram como o de Mariana, mas, mesmo assim, destaco o que se intitula “A vida e o sonho”, no qual Adérito vive uma existência da qual não detém a chave. Tudo é medíocre, o casamento, o emprego. Só sentimos uma centelha de vida no prazer escondido que leva a cabo todos os domingos. Mas nem a esse prazer ele abre os braços de forma completa. E mais não digo, para não estragar a leitura daqueles que, futuramente, possam, tal como eu, querer conhecer esta obra e esta escritora magníficas, que merecem o reconhecimento de todos nós.

Agradeço muito, muito à Bárbara a recomendação e espero ter respondido convenientemente às suas expectativas. Entrei pela porta grande no mundo de Maria Judite de Carvalho e tenciono continuar a privar com as suas histórias. Agora resta-me fazer o que fez a Bárbara – seguir com a corrente e recomendar vivamente que leiam Tanta gente, Mariana, pois a viagem que farão nesta coletânea é imprescindível. É dolorosa, mas única!

NOTA – 09/10 (Se todos os contos fossem como o da Mariana e o do Adérito, daria a toda a obra nota máxima)

Sinopse

Uma mulher, Mariana, descobre que vai morrer. Só, no seu quarto, passa em revista toda a sua vida. Desde o falecimento prematuro da mãe ao carinho extremo e triste do pai. Entre alegrias e tristezas esta é uma análise implacável da solidão dos tempos modernos em que, mesmo rodeados pelos outros, nos fechamos em nós.+

in O sabor dos meus livros