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Ser o melhor da nossa rua: o efeito Dunning-Kruger e a superioridade ilusória

Há uma atitude comum em muitos portugueses, transversais à maioria dos povos – o efeito Dunning-Kruger. Por isso, não se sinta único. Mas… pergunta-se você: o que é isto?

Há momentos em que achamos que somos melhores condutores que os outros, que os outros não sabem fazer o trabalho tão bem como nós, que somos mais inteligentes que a média, que os outros não percebem nada e nós é que sabemos, etc. Por outro lado, temos o mesmo efeito quando queremos saber algo, vemos alguma informação superficial, e só porque percebemos aparentemente, já somos uns experts no assunto.

Este é o efeito Dunning-Kruger (publicado num estudo de 1999 e ainda atual). Tal como se pode constatar no artigo e no vídeo TED (produzido com a colaboração do próprio David Dunning), todos podemos ser vítimas deste efeito que se caracteriza pela tendência a sobrestimar as nossas aptidões cognitivas/intelectuais e sociais.

Esta “superioridade ilusória” é uma crença tão difícil de evitar que chega a “transgredir as leis da matemática”, segundo o vídeo. Por exemplo, quando os investigadores pediram a engenheiros de software para qualificarem o seu próprio trabalho, mais de 30% afirmaram estar nos 5% melhores da sua empresa. Numa outra investigação norte-americana, verificou-se que 88% dos motoristas afirmaram conduzir melhor que a média. É como nós vemos à nossa volta quando conduzimos. Os outros é que estão errados e nem sabem por andam nas estradas!

Agora a parte mais curiosa deste efeito: sabia que são precisamente os que tendem a ter melhor ideia sobre si próprios que se caracterizam como os menos capazes? Pois é, de forma linear e correndo sérios riscos de estar enviesado do padrão, quanto mais sabe, menos fala e quanto mais fala, menos sabe. Dito de outra forma, quanto menos sabemos sobre um assunto, acabamos por achar que sabemos tanto que já podemos falar dele e transmitir aos outros. Isto é evidente quando alguns estudos mostram que os mais ignorantes julgavam saber quanto os especialistas.

De modo inverso, os resultados deste efeito mostra o erro dos especialistas: não acham que sabem menos que os outros, mas pensam frequentemente que os outros até sabem bem de um tema que dominam. Por exemplo, na minha área como Psicólogo, Psicoterapeuta e Psychological Coach, e em relação à vertente do meu trabalho de coaches no mercado (onde até existem vários competentes), costumo dizer que é a diferença entre alguém que sabe o capítulo do livro e o especialista que sabe a ciência ou escreveu o livro onde está esse capítulo.

A natureza humana acaba por ser pouco assim, pois estes resultados que caracterizam o efeito Dunning-Kruger não são isolados. Como diz no vídeo, acabamos por “sobrestimar em todas as áreas, incluindo a saúde, a capacidade de liderança e a ética”.

É fácil falar do que não sabemos, porque não sabemos o que ignoramos. Consequentemente, falar do que não sabemos bem, acaba por ser fácil, porque não sentimos culpa ou noção de erro por falta de informação.

Por isso, é que a formação e educação é fundamental para uma comunidade e para um país. Quanto mais ignorantes são as pessoas, mais preconceitos, enviesamentos, medos, credos e resistência à mudança enfrentamos. Esta combinação de características leva à construção de histórias e teorias lógicas, irrealistas (mas com sentido dentro da fantasia) que leva à transmissão de conhecimento fidedigno entre as pessoas, mesmo que erradas ou prejudiciais. Como exemplo concreto, partilho um estudo de Besley da Universidade Yale (2010) que evidenciou que a maioria das pessoas não têm conhecimento significativo sobre nanotecnologia, o que é esperado. No entanto, quase ninguém hesita em dar opinião sobre se os benefícios da nanotecnologia superam os riscos.

As redes sociais, com a proliferação das partilhas e dos opinion makers, acabam por alimentar e aumentar este efeito Dunning-Kruger, chegando, por vezes, ao ridículo de vermos amadores falarem como especialistas e especialistas ficarem inseguros no que dizem junto dos amadores. O querer parecer alguém maior do que é para os outros, antes de ser igual a si próprio para dizer o que quer dizer parece, claramente, aumentar este efeito.

Para terminar, o que o efeito Dunning-Kruger permite concluir é que somos mais incompetentes em conhecer os nossos próprios limites, do que a incompetência dos outros. Por isso, o que tem mais interessante não é o acusar e identificar os erros dos outros, mas sim aceitarmos que todos cometemos erros sem sabermos, e é precisamente esse padrão que nos caracteriza humanos.

Acima de tudo, o ideal é não definir o nosso valor permanente, por causa de erros temporários. Não somos o que nos acontece, mas, acima de tudo, o que fazemos com o que nos acontece.

Ivandro Soares Monteiro

Psicólogo Clínico, Psicoterapeuta & Psychological Coach

www.ivandrosoaresmonteiro.com

Confie em si, de dentro para fora

#Trustyourselfinsideout

Fontes:

http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.64.2655&rep=rep1&type=pdf

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3167657/