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Regressar ao indígena que somos?

O que não queremos surge no nosso dia-a-dia e tem de ser, não afastado, não combatido ou aniquilado, tem de ser “harmonizado” como parte do mundo que é. Não há lutas, nem exteriores nem interiores. Há procura de harmonia, mesmo entre o que surge como mau.

Calixto Suarez

 

Há dias que terminam de forma saborosa. Ou porque esse finzinho de tempo nos dá um prazer agradável, ou porque podemos contabilizar um acrescento qualquer que valorizamos, ou porque, como ontem, consigo dizer a mim mesmo que nem tudo se esvai na espuma dos dias, porque há dimensões que não são coisas ou eventos: são muito mais sólidas e permitem-nos saborear um tempo para além dos momentos de prazer imediato. Não dão prazer, trazem felicidade.

Calixto Suarez é um representante e defensor da cultura indígena colombiana. Numa ligação profunda entre a Terra, o território e a comunidade, recuperou para o seu povo 1000 hectares de território na Serra Nevada, cuja importância ao nível da preservação da biodiversidade é reconhecida internacionalmente. Mas ouvir, numa noite de Outono, Calixto, é muito mais que percorrer uma narrativa de resistência e afirmação de uma cultura.

Na sua voz compassada, este líder índio não conta a sua História, nem a História do seu povo, os Ahuarco. Ou melhor, conta-a, mas ela é-nos apresentada como uma ética. E ao ser apresentada como um caminho de um provo que é imagem de valores que estão acima dele, essa história torna-se nossa. Não na narrativa, mas nesses valores.

A luta pelo território ganha a dimensão antropológica porque para este povo o “território é o corpo físico”, parte integrante de cada ser humano. E não é apenas uma comunhão com a natureza no que o território encerra, é uma consubstanciação espiritual em que a Alma, o Corpo e a Terra fazem parte do mesmo. Tudo tem esta tríplice constituição no olhar de Calixto.

E, assim, mais que para um discurso sobre as origens, sobre uma reverência a um momento primeiro ou a um criador, percebemos que para este pensamento, digamos que “indígena”, os momentos não valem grande coisa. Não o ouvi falar de génesis nem de fim. Ouvi-o falar de continuidades, de presentes longos no tempo. De harmonização em cada momento. Não num reencontro, mas numa criação de equilíbrios.

Para Calixto a “harmonização” é a dinâmica da vida. Não há, nem bem, nem mal. Há um equilíbrio entre o que queremos e o que não queremos. O que não queremos surge no nosso dia-a-dia e tem de ser, não afastado, não combatido ou aniquilado, tem de ser “harmonizado” como parte do mundo que é. Não há lutas, nem exteriores nem interiores. Há procura de harmonia, mesmo entre o que surge como mau.

A metodologia é simples: estar grato. Numa natureza tão rica, tão diversa. Capaz de tanto se regenerar, o centro de uma “prática” é uma espiritualidade do reconhecimento, do agradecimento, da gratuitidade. Estar grato, simplesmente.

É tão simples esta mensagem. É tão transversal a tanto do que sobranceiramente chamamos de indígena, que nos mostra como, de alguma forma, a cultura nos foi afastando de uma integração na natureza.

No final desta conferência, que teve lugar na Universidade Lusófona, com o apoio da Associação DUNA, não resisti e entrei no longo debate que se gerou. Ironicamente, estar numa cultura que se coloca acima dos povos locais, roubou-nos essa serenidade de sermos “indígenas” de algum lugar e de alguma coisa.

Desenraizados, buscadores de sentidos, talvez por isso tenhamos, tantos de nós, a necessidade de ir “à terra” quando chega o Verão ou mal temos uns diazitos de férias. A busca por esta relação de harmonização com a natureza parece ser, realmente, transversal. Ou, se o não é, é uma pedagogia que nos dá serenidade. Só por isso, já valeu um fim de tarde que me fez pensar.