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Portugueses do Luxemburgo em isolamento social

As dificuldades linguísticas podem conduzir ao isolamento social dos imigrantes portugueses nos lares do Luxemburgo, contribuindo para doenças como a depressão e a demência, apontam estudos da Universidade do Luxemburgo.

A situação dos imigrantes nas instituições da terceira idade no país é abordada na revista “Biografias e redes de apoio social (trans)nacionais de migrantes idosos no Luxemburgo”, que reúne uma série de estudos das investigadoras Ute Karl e Anne Carolina Ramos.

Os estudos dão voz a imigrantes, que continuam a ser uma minoria nos lares e centros de dia no Luxemburgo, reunindo entrevistas a 34 utentes de várias nacionalidades, incluindo 12 portugueses.

Cândida, uma das idosas portuguesas ouvidas pelas investigadoras, vive num lar de idosos no Luxemburgo e passa os dias fechada no quarto.

“Não saio do meu quarto. Para fazer o quê? Falar com os luxemburgueses?”, disse às investigadoras.

A octogenária não fala luxemburguês e “treme da cabeça aos pés” quando a convidam para ir a encontros, porque não percebe a língua, e só consegue comunicar com a cozinheira portuguesa.

“Nesta casa, é a única pessoa com quem falo”, afirmou.

Não é caso único. Conceição, outra das idosas portuguesas ouvidas no estudo, frequenta um centro de dia e também não fala luxemburguês, passando os dias sozinha, “sentada a um canto”, a contar as horas que faltam para voltar para casa.

Os estrangeiros representam 47% da população do Luxemburgo, mas continuam a ser uma minoria nos lares: só 4% dos portugueses e 22% dos italianos no país têm mais de 65 anos, aponta o estudo, citando dados do Statec, o instituto de estatísticas luxemburguês.

A esmagadora maioria dos utentes são luxemburgueses e preferem falar luxemburguês, uma língua que é uma barreira para os imigrantes portugueses, que só aprenderam francês, um dos três idiomas oficiais no Luxemburgo.

“A maioria fala francês, mas alguns só se desenrascam, como eles próprios dizem”, explicou Anne Carolina Ramos. “A maioria trabalhou sempre entre portugueses: os homens na construção e as mulheres nas limpezas, e não usavam a língua nem no trabalho, nem em casa”, acrescentou a investigadora.

Por causa das dificuldades linguísticas, “o contacto com outros utentes não pode ser facilmente estabelecido, apesar de constituir um aspeto importante do bem-estar” dos idosos, concluem as investigadoras, sublinhando que as relações sociais protegem de “doenças cardiovasculares, cancro, depressão e demência”.

“Eles acabam por se sentir socialmente isolados, porque não conseguem comunicar com as outras pessoas”, apontou Anne Carolina Ramos.

Para a investigadora, é preciso encontrar soluções “para reduzir o isolamento social” dos imigrantes.

“Pensámos em criar departamentos para imigrantes portugueses e mediterrâneos, como italianos, porque alguns trabalharam com italianos e acham que têm muito mais em comum culturalmente com eles”, defendeu, apontando que essa é uma solução já usada na Suíça.

Um segundo estudo da Universidade do Luxemburgo, publicado na mesma revista, questionou 17 imigrantes com mais de 65 anos, incluindo nove portugueses, sobre as suas preferências em relação aos cuidados de saúde na terceira idade.

Ir para um lar no Luxemburgo é a última opção, por causa das dificuldades linguísticas, segundo o estudo.

“Muitos deles imaginam voltar para Portugal para ir para um lar, porque lá vão poder falar na língua deles, apesar de a vontade ser ficar no Luxemburgo, porque têm aqui os filhos e os netos”, explicou Anne Carolina Ramos.

Outro fator que preocupa os portugueses é o custo dos lares: com reformas baixas, “muitos não conseguem pagar as mensalidades”, que rondam os 2.500 euros por mês, indica o estudo.

O Fundo de Solidariedade Nacional comparticipa o pagamento, mas para isso é preciso que os beneficiários hipotequem as casas a favor do Estado.

Mas para os imigrantes que deixaram Portugal para fugir à pobreza, “ser proprietário de uma casa é um símbolo de sucesso” e perdê-la representa “uma regressão”, sublinha o estudo.

A coletânea de estudos foi enviada ao Ministério da Integração e a profissionais do setor, disse à Lusa Anne Carolina Ramos, que considera que a questão é importante para “o planeamento das políticas de saúde públicas”.