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Papa e Scorsese contra a crueldade e a falta de humanidade

O Papa Francisco disse em Roma que todos se devem unir contra a “crueldade” na sociedade, em resposta a uma questão colocada pelo cineasta Martin Scorsese, durante a apresentação de um livro pensado pelo pontífice.

“Uma das formas [de crueldade] que mais me toca, neste mundo dos Direitos Humanos, é a tortura”, que tira a “dignidade às pessoas”, observou, no Instituto Patrístico Augustinianum, onde foi lançado o livro ‘Partilhando a Sabedoria do Tempo’ (Loyola Press), com prefácio do próprio pontífice.

O novo projeto editorial, com 250 entrevistas e reflexões do Papa, que quer dar vida ao seu sonho de uma “aliança entre jovens e idosos”.

Francisco respondeu esta tarde a perguntas de um grupo de jovens e idosos, oriundos da Colômbia, Itália, Malta e Estados Unidos da América, incluindo o realizador Martin Scorsese, que falou do “sofrimento real” que experimentou nas ruas de Nova Iorque (EUA), aparentemente “distante” da mensagem que lhe era transmitida pela Igreja Católica.

“A não-violência, a mansidão, a ternura, estas virtudes humanas que parece pequenas, são capazes de superar os conflitos mais duros”, observou o Papa, em resposta.

Francisco recomendou a proximidade com os que sofrem, com os problemas, pedindo a “sabedoria de chorar”.

“O choro é humano e cristão. Peçamos a graça das lágrimas”, apelou.

O pontífice, que falou mais de uma hora, convidou os mais velhos a partilhar as suas experiências de vida com “empatia”, face às novas gerações.

Uma jovem italiana perguntou ao Papa como encontrar a felicidade num mundo “a fingir, plástico”.

Francisco concordou que hoje, muitas vezes, “o que conta são as aparências, o sucesso pessoal”, mesmo à conta dos outros, convidando a ter uma atitude contrária à da competição, abrindo as mãos e servindo.

“Suja as mãos e serás feliz”, recomendou.

Um casal de avós, vindos da ilha de Malta, falou da dificuldade de falar da fé católica aos pais e netos.

O Papa valorizou o papel dos avós na transmissão da fé em contextos de perseguição, como aconteceu no século XX, e defendeu que a fé se transmite “em dialeto”, em casa, “sem perder a paz” e sem “tentar convencer”.

“A fé cresce por atração, pelo testemunho”, precisou, defendendo que o silêncio e a ternura que acompanha as pessoas destroem “quaisquer resistências”.

Em resposta a outra pergunta, que lhe foi dirigida como a um “avô”, Francisco desafiou os jovens a “sonhar, sem vergonha”, e a assumir os sonhos dos mais velhos, para os “levar por diante”.

“O sonho que recebemos de um idoso é um peso, uma responsabilidade”, advertiu.

Fiorella Bacherini, professora de italiano junto de migrantes e refugiados, mostrou-se chocada com a falta de respeito pela “humanidade” destas pessoas e perguntou o Papa o que sentia perante este “momento difícil do mundo”.

“Os jovens não têm a experiência das duas Guerras [Mundiais]”, da “dor da guerra”, reconheceu o pontífice, assinalando que, pelo contrário, “os idosos sabem como cresce um populismo”.

Francisco recordou a ascensão de Hitler, na Alemanha, e apresentou uma chave para reconhecer o surgimento dos populismos, o surgimento de atitudes de “ódio” e de “divisão”.

“Semear o ódio. Não se pode viver semeando ódio”, alertou.

O Papa lamentou ainda a “falta de humanidade” perante quem chega à Europa.