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O Renascer das Direitas

A direita governou Portugal durante mais de quarenta anos com o regime nacionalista e autoritário do Professor Doutor António de Oliveira Salazar. Por isso, embora tenha tido altos custos, é normal que a esquerda governasse no ciclo seguinte, em termos de hegemonia ideológica, supremacia política e até, no limite, superioridade moral.

Quando falo de direita e de esquerda não o faço tendo por base os conceitos maniqueístas vulgarizados pela “esquerda”, em que “eles” são os pobres, os camponeses, as classes trabalhadoras, os intelectuais não compreendidos, os jovens, os artistas, os progressistas, os bons; e a Direita, os ricos, os patrões, os capitalistas, os reacionários, os nacionalistas, os fascistas, os maus da história. Nem da versão igualmente maniqueísta da “direita”, em que a direita são as classes médias empreendedoras, os empresários, os liberais, os europeístas, os antifascistas, o “país real” – os bons; e a esquerda os que vivem de subsídios, os comunistas, os anarquistas, os socialistas, os estatistas, os totalitários – os maus…

O que separa a direita da esquerda tem pouco ou nada que ver com estas guerras e apelidos de classe ou de renda: são antes de tudo as bases filosóficas distintas como o “pessimismo” e o “otimismo” antropológicos, isto é, o ponto de partida sobre a natureza humana que classifica o homem como “naturalmente” bom ou mau. Santo Agostinho, Maquiavel e Hobbes seriam “de direita” e Rousseau, Marx e Lenine de esquerda. Isto é claro! Se o 25 de Abril de 1974 rejeitou os valores de direita, a verdade é que as direitas, com exceção das novas gerações, tinham deixado de pensar politicamente nos últimos anos do Estado Novo.

As esquerdas, aproveitando o descontentamento corporativo dos militares com a guerra em África e a Primavera Marcelista, impuseram a sua linha orientadora a partir do golpe militar de Abril. Ímpeto que só foi refreado pela brava intervenção militar do Regimento de Comandos da Amadora (RALIS) que, por se sentirem traídos pelas altas esferas de Comando na sua maioria alinhadas com o Partido Comunista Português, tomaram para si o dever e a obrigação de impedir que Portugal se tornasse uma Venezuela da Europa e, por meio da intervenção militar de 25 de Novembro de 1975 travaram a foice e o martelo que assombravam Portugal.

A direita sociológica e até ideológica que sobreviveu, continuou ou recomeçou na política, teve, partidariamente, de se resignar a alinhar e votar nos partidos de “centro”, no Centro Democrático Social (CDS) ou na Social-democracia (PSD).

Os principais valores da trilogia do Estado Novo – Deus, Pátria e Família – desapareceram na purga cultural do PREC e no branqueamento político que se lhe seguiu, até aos dias de hoje.

Com medo de perderem militantes e com isso votos, os líderes partidários das direitas foram-se ficando pelo conservadorismo democrata-cristão ou por um compromisso de austeridade social-democrata que os seus inimigos qualificam de liberal ou ultraliberal. Partindo da base de um pessimismo antropológico, os valores da direita estão ligados ao realismo geopolítico, ao nacionalismo político – que em nada tem que ver com o Fascismo, ao conservadorismo familiar e social e à economia de mercado livre. Se uma comunidade viveu durante muitos séculos com valores de orientação como o patriotismo, o enraizamento, a família tradicional, a propriedade privada, ou o sentido do transcendente, será que se pode deixar de cultivá-los e acabar com eles sem que hajam consequências?

Somos hoje uma nação dependente, mas o resto do mundo começou a dar a volta: estes valores (de direita) estão outra vez presentes no Leste europeu, na Ásia, nas Américas, e finalmente na Europa. Portugal, que sob este ciclo político-ideológico de esquerda enjeitada decaiu e empobreceu para limites nunca vistos, poderá nos próximos anos – e até pela terapia de choque do desastre – estar aberto a um novo ciclo político-ideológico?

Afiguram-se tempos de mudança clara no panorama nacional e internacional com o surgimento de jovens de Direita com discursos bem estruturados, onde a família, a pátria, e o valor do trabalho marcam o compasso de uma dialética rejuvenescida de valores que ganham vida.

Esta é a Direita que conquista o Centro, que lhe dá valor e o caracteriza, e não o Centro que impele pela Direita e a destrutura com ideias vãs.

Às forças políticas, Movimentos e Partidos da não-esquerda compete retomar sem medos as bandeiras da direita nacional, ou deixá-las abandonadas ou livres, para quem tiver a coragem e a força de as restaurar. Alea iacta est*.

* “Os dados estão lançados” em latim.