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O Estado, a Família e o CDS

Lembro-me bem do dia em que o CDS, deixando-se influenciar pela agenda “progressista” mundializada, de inspiração marxista, e interpretando-a, como outros o fizeram no passado, a outro propósito, como dando corpo aos imparáveis, irreversíveis e inexoráveis “ventos da mudança”.

Lembro-me com quem estava, onde estava e das reacções de espanto dos presentes. Não me lembro do que tinha vestido, não tenho memória para tanto. Nesse dia, em 2012, tinha sido votada na Assembleia da República a proposta de lei do PS sobre a co-adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo (a que teimaram chamar “casais”). Lembro-me que esta proposta teve o voto favorável de um deputado do CDS e a abstenção de um outro. Todos tínhamos a noção de que era apenas um primeiro passo, para mudanças mais profundas, que vieram e continuam (aceleradamente) a concretizar-se. Que era como uma brecha aberta numa das paredes da muralha e que, em breve, estaria destinada a ruir.

Lembro-me de um outro dia, poucos anos mais tarde, em 2015, em que tinham sido votados os projectos de lei sobre a adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo, aprovados com os votos dos partidos de esquerda, incluindo o do deputado do PAN e de 19 deputados do PSD. Lembro-me também que nesta votação duas deputadas do CDS se abstiveram e que um outro deputado e presidente do CDS não estava na sala no momento da votação. Diz-se, frequentemente, que “em política nada acontece por acaso”. Acredito que assim é.

Está em curso, desde há décadas, um insidioso ataque à família que se faz a pretexto da defesa de direitos humanos e das minorias ditas “oprimidas”. Ao valor e direito fundamental da pessoa humana de que dependem todos os restantes direitos – a vida humana – e ao valor de família natural, geradora de vida e garante da sua preservação, um dos pilares fundamentais da nossa civilização, da liberdade de pensamento e de expressão, da liberdade religiosa e da liberdade de educação dos filhos, que decorrem da anterior, tem vido a sobrepor-se outros valores como o da liberdade de escolha, de liberdade de expressão da identidade sexual e da auto-determinação deidentidade de “género”, do direito a não “sentir-se ofendido” pela liberdade de expressão alheia, ou do direito do Estado a interferir, sobrepor-se ou substituir-se às famílias na educação dos seus filhos.

Todos estes valores ditos “progressistas”, que atentam contra a estrutura da sociedade ocidental, legado que é da cultura greco-romana e judaico-cristã, e que deveriam estar subordinados aos valores fundamentais, e não sobrepor-se ou substituir-se a estes, têm vindo a ser adoptados e promovidos por influentes organizações internacionais, poderosas organizações não- governamentais e Estados, influenciados ou coagidos por estas, um pouco por todo o mundo.

Portugal não tem escapado à escalada desta agenda, a que todos temos assistido, com o lançamento dos temas não inocentemente conhecidos como “fracturantes”, de forma persistente (tantas vezes quantas seja necessário até terem aceitação), sucessiva (um tema após o outro) e progressiva (cada vez mais extremado). Neste sentido, todos os partidos políticos com representação parlamentar têm de alguma forma favorecido esta agenda, seja lançando iniciativas no sentido de a concretizar, que têm surgido da área das esquerdas, que reúne socialistas, marxistas, trotsquista e animalistas, seja com a colaboração ou cooperação de social-democratas, seja pela falta de oposição clara, esclarecida, afirmativa, comprometida e destemida dos demais, devidamente fundamentada em valores perenes.

A política faz-se de verdade, na defesa de valores e princípios e rejeitando a manipulação da ditadura do politicamente correcto que se vem instalando. No CDS, a política faz-se e deve fazer-se ao serviço da dignidade da vida da pessoa humana, rejeitando a imposição de modelos de sociedade que procuram subverter a própria natureza humana.

Entendamo-nos. A família natural, modelo e estrutura base da nossa civilização, não é outra senão a que é formada por pai, mãe e filhos. Aquela a que hoje, com algum desdém, se chama de “família tradicional” (a novilíngua marxista sempre presente!), por contraponto àquelas que não são assim compostas, por liberdade de opção ou pelas contingências da vida.

Esse é o modelo de família defendida pelos cristãos, pelos cristãos democratas e pelos democrata-cristãos, e claramente não defendida pelos liberais.

Nessa perspectiva, essa é a família que do ponto de vista do CDS deve ser protegida, defendida e fomentada pelo Estado, que se deseja ser servidor da sociedade e do interesse comum. Fomentar qualquer outro modelo de família põe em causa a estrutura da nossa civilização e promove, que não haja qualquer dúvida, entre outras calamidades a redução da natalidade. Quanto aos afectos, fundamentais para o desenvolvimento da pessoa humana, estarão presentes, certamente, nas famílias, ainda que não-tradicionais. Aí, o Estado nada pode, nem deve, interferir.

Cada pessoa, maior de idade, tem a opção de organizar a sua vida e viver com quem entender (nada nem ninguém se pode ou deve opor), pode constituir vínculo de união civil com uma (apenas uma) outra pessoa (apenas pessoa humana), com a qual não tenha vínculo de parentesco (descendente, ascendente ou colateral), que seja igualmente maior de idade (vedado a menores) e de sexo oposto, sendo que, à luz da legislação actual, tal é permitido com pessoas do mesmo sexo, o que, neste último caso, subverte o modelo dito “tradicional”.

À promoção de qualquer modelo alternativo de família, respeitando plenamente a sua base doutrinária, um democrata-cristão não pode senão opor-se.

O autor escreve em português correcto, não reconhecendo o AO 1990.
Engenheiro e gestor; Conselheiro Nacional do CDS e Membro da Comissão Executiva da TEM/CDS