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“O cão e os Caluandas” de Pepetela

Ficha técnica

Título – O cão e os caluandas

Autor – Pepetela

Editora – Publicações Dom Quixote

Páginas – 172

Opinião

Com Pepetela aprendo sempre um pouco mais sobre Angola. Nesta obra aprendi um pouco mais sobre Luanda e sobre os seus habitantes, os Caluandas. Este é apenas o terceiro livro que leio deste autor, mas a bagagem proporcionada pelos anteriores permitiu-me adentrar-me na narrativa e sobretudo na sua linguagem, repleta de termos e expressões do português angolano, sem que isso se revelasse uma grande “maka”.

Tal como o título indica, esta obra, uma das primeiras escritas por Pepetela, segue as pisadas de um cão, um pastor alemão que deambula pelas ruas de Luanda sem trela nem dono e que se vai aproximando de um número significativo de pessoas com quem se cruza. Não pede nada, deixa que lhe afaguem o lombo, segue a pessoa para onde quer que ela vá, instala-se temporariamente na sua vida, recebe mimos ou patadas e um dia, sem que ninguém saiba porquê, desaparece e segue o seu rumo de cão sem dono. Mas deixa sempre marca naqueles com quem se cruzou e é essa marca que o autor tenta registar nas páginas da sua obra, interpelando um poeta de rua, um primeiro-oficial, um operário fabril, tendo acesso a atas, a um argumento de uma peça teatral ou falando com o mais comum dos caluandas. Através destes testemunhos, vamos ganhando simpatia e fascínio pelo canídeo ao mesmo tempo que vamos compreendendo a sociedade angolana dos anos oitenta, recém-saída da dependência colonial. Todos aclamam orgulhosamente essa libertação de um jugo de séculos, todos continuam a apontar o colonizador como culpado de todos os males que lhes aconteceram ou acontecem. Mas todos (e isso vamos captando através da escrita do autor, suave e paradoxalmente irónica e humorística) vão demonstrando o longo percurso que Angola teria que percorrer como jovem nação independente e exemplificando vícios e erros que infelizmente perduram nos dias de hoje, mais de trinta anos depois – o suborno, a corrupção, a disparidade entre as classes sociais e as consequentemente distintas condições de vida entre um camarada diretor e um camarada empregado fabril.

A obra, para além dos testemunhos reunidos pelo autor sobre a passagem do cão na vida de alguns caluandas, apresenta uns capítulos escritos em itálicos intitulados “buganvília” e que relatam a vontade de uma família (que casualmente – ou não – tem um cão) em criar uma quinta numa localidade perto de Luanda e que lhe possibilite enriquecer com os produtos que cultivam aí. Junto à casa da quinta, plantam uma buganvília que crescerá a um ritmo voraz, espezinhando tudo o que esteja à sua volta e devorando terreno e as paredes da casa. Confesso que não entendi muito bem o propósito desta parte. Talvez o autor queira simbolicamente associar a voracidade da buganvília à voracidade e velocidade com que a corrupção e a desigualdade abocanharam e se assenhoraram da jovem nação angolana, o quanto a sua semente parecia, à partida, insignificante e inofensiva e num ápice esmagou tudo o que se lhe apresentasse à frente… Talvez seja esse o significado destes capítulos em itálicos, talvez não seja em absoluto esse o seu significado… Ficarei eternamente na dúvida.

Foi uma leitura agradável. Simpatizei imenso com o cão, adoraria poder afagar-lhe o pelo e seguir as suas deambulações. Gostei do registo inovador que preenche grande parte da narrativa, traduzido em testemunhos de diversas proveniências e em interferências pontuais do próprio autor. Gostei de saborear, uma vez mais, a língua portuguesa temperada com expressões e vocábulos angolanos e sentir-me satisfeita por não ter que recorrer, com a frequência que havia feito em leituras anteriores, ao glossário presente no final da obra ou a um dicionário online. Porém, não gostei muito de tropeçar com ideias e factos de forma repetitiva – eu sei que a corrupção e o suborno são gigantescos em terras caluandas, mas já sei disso desde que comecei a ler autores angolanos. Também não gostei muito da parte intitulada “Buganvília”, sobretudo porque não entendi bem o que a mesma significa ou representa. E por fim, refiro que não gostei muito das últimas partes – as que poderemos apelidar de epílogo – porque me deixaram baralhada e sem certezas nenhumas sobre o que havia lido até aí. Bule-me com os nervos tudo aquilo que não consigo entender com clareza, tudo aquilo que saia de alguma forma do concreto, passe para o lado fantástico e não entre no meu entendimento.

Enfim, uma leitura interessante. Não a melhor, no meu ponto de vista, que fiz de obras de Pepetela, mas uma leitura que os amantes de autores africanos e de narrativas onde o real anda de mãos dadas com a fantasia devem ter em conta.

NOTA – 07/10

Sinopse

O Cão e os Caluandas lança um olhar inteligente sobre a realidade do pós-independência de Angola, e retomam algumas obsessões mais frequentes da literatura angolana: a busca das raízes de uma identidade nacional, a dualidade tradição/modernidade e o lugar da violência na sociedade contemporânea.

 

in O sabor dos meus livros