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Nelly Novaes Coelho: mestra de muitas gerações

A recente notícia da morte da professora e crítica literária Nelly Novaes Coelho trouxe imenso pesar aos meios acadêmicos e literários. Ficam, no entanto, as belas lembranças da mestra irretocável e crítica fecunda por aqueles que, assim como eu, tiveram o privilégio de sua convivência, no curso de Letras da Universidade de São Paulo, onde foi docente por mais de cinco décadas.

Guardo em meus arquivos cartas e bilhetes carinhosos por ela enviados, ao longo das quase três décadas de nossa amizade. Nelly era de uma atenção e gentileza raríssimas nos meios acadêmicos. Passou a maior parte da vida produzindo uma obra extraordinária e ainda assim nunca se descuidou dos amigos e de quem quer que a procurasse, na expectativa de orientação ou simples conversa sobre literatura.

Nascida em S.Paulo, em 17 de maio de 1922, apenas três meses depois da Semana de Arte Moderna, fez seus primeiros estudos no Externato São José, na capital paulista, iniciando, ainda criança, seus estudos de piano (tinha parentesco com a genial pianista Guiomar Novaes). Mais tarde, ingressou no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde foi aluna de Mário de Andrade. Em 1939, recebeu uma bolsa para aperfeiçoar seus estudos de piano na Itália, mas o início da II Guerra Mundial acabou por impedi-la de deixar o Brasil.

Nos anos 50, já casada e mãe de seu único filho, ingressou no curso de Letras Neo-Latinas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, tornando-se, logo após formada, assistente do professor Antônio Soares Amora, na cadeira de Literatura Portuguesa. Pouco antes, havia colaborado com o professor Luiz Amador Sanchez, na área de Literatura Espanhola e Hispano-Americana.

Em 1961, tornou-se professora titular de Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Marília e passou a colaborar no Suplemento Literário do jornal O Estado de S.Paulo, dirigido por Décio de Almeida Prado, seu colega na Universidade de São Paulo. Na época, o Suplemento era o veículo de maior prestígio da imprensa brasileira no campo da crítica literária.

Ainda nos anos 60, seguiu para Portugal, como bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian, para pesquisar a obra de Aquilino Ribeiro, tema de seu doutoramento na Universidade de São Paulo, e publicou seus primeiros livros: Tempo, solidão e morte (1964), O ensino da literatura (1966), trabalho destinado à formação de professores, que visava suprir imensa lacuna bibliográfica à época existente sobre o tema, e Ramalho Ortigão (1968).

Na década de 70, ministrou cursos na Universidade de Lisboa e na Universidade da Califórnia, publicando, paralelamente, importantes trabalhos críticos sobre autores brasileiros e portugueses: Mário de Andrade para a jovem geração (1970), Três momentos poéticos (1970), Escritores portugueses (1973), Aquilino Ribeiro (1973), Literatura e linguagem (1974) e Guimarães Rosa (1975). No mesmo período, fundou e dirigiu as Edições Quíron, abrindo espaço para grandes revelações de nossa literatura.

Nos anos 80, enfrentando vários dissabores, criou, na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, o curso de Estudos Comparados de Literatura Infantil e Juvenil, consciente que estava da importância do estudo crítico da produção literária para a infância e a juventude, até então praticamente alijado das universidades. Lançou, em 1982, seu monumental Dicionário crítico de escritores da literatura infantil/ juvenil brasileira. Na mesma década, escreveu duas outras obras que se tornaram referências aos estudiosos da literatura infantil e juvenil em nosso país: Literatura infantil teoria – análise – didática (1980) e Panorama histórico da literatura infantil/juvenil (1982).

Em 2000, veio a lume Literatura: arte, conhecimento e vida, a mostrar o quanto a literatura pode ser o ponto de partida e o eixo norteador para a revisão do sistema educacional brasileiro, integrando as diversas áreas do conhecimento humano. Logo em seguida, lançou mais uma de suas obras monumentais, o Dicionário crítico de escritoras brasileiras (2002), minucioso levantamento da produção literária feminina brasileira, desde suas primeiras manifestações, no Brasil colônia, até o começo deste século. Anos antes, igualmente debruçada na produção literária feminina brasileira, havia publicado A literatura feminina no Brasil (1993), no qual reuniu estudos dedicados, dentre outros nomes, a Clarice Lispector, Adélia Prado, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst.

O conto de fadas símbolos – mitos – arquétipos, obra teórica que desvenda o mundo fantástico das histórias de Esopo, Perrault, La Fontaine, Grimm, Andersen, Carroll e tantos outros, lançado em 2003, viria a se tornar mais um título essencial aos pesquisadores e alunos de literatura.

Em 2013, aos 91 anos, ainda orientando alunos de pós-graduação na Universidade de São de Paulo, aparecia nas livrarias mais um alentadíssimo trabalho de sua lavra, Escritores brasileiros do século XXum testamento crítico, que em suas quase mil páginas mapeia a produção literária de 81 escritores contemporâneos e nas palavras de Tatiana Belinky é um “livro fascinante, fruto de amplas e profundas pesquisas, estudos, leituras…”.

Sua militância intelectual também pode ser observada pelo número de instituições culturais que integrou, dentre elas, APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), da qual foi presidente, UBE (União Brasileira de Escritores), Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), Fulbright Alumini Association, Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana e APC (Association pour La Penseé Complexe), a convite de Edgar Morin, seu amigo e interlocutor por muitos anos.

Para fechar nossas singelas evocações sobre Nelly Novaes Coelho, nada mais oportuno do que reproduzir as palavras de outra grande mestra, Elisa Guimarães, de quem igualmente tive a alegria de ser aluno na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, presentes em Linhas e entrelinhas homenagem a Nelly Novaes Coelho: “Bem humorada, astral incrivelmente leve, sem afetação nem maneirismos exóticos, a professora Nelly, num mundo com tantos desafios e contradições, consegue enxergar os abismos de nosso tempo sem deixar de transpirar uma carga de otimismo, na dose de quem sabe que a vida vale a pena ser vivida. Quando sua estrela, parecendo baça, dá sinais de esmaecimento, providencia logo um novo lustro, um brilho renovado.”

Fico, entretanto, a pensar como terão sido os últimos três anos de vida da grande mestra, recolhida a uma casa de repouso, impedida da convivência com seus alunos e amigos, distante da extraordinária biblioteca que formou, até apagar-se, solitária, no triste 29 de novembro de 2017.

*Texto de Angelo Mendes Corrêa, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.