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Migrações: candidatura de Vitorino mostra vitalidade da diplomacia portuguesa

A candidatura de António Vitorino mostra que a “máquina da diplomacia portuguesa” está ativa e consegue competir ao mais elevado nível, mesmo que não alcance a direção-geral da Organização Internacional das Migrações, disse à Lusa a investigadora Lívia Franco.

Na sexta-feira, em Genebra, os 169 Estados-membros da Organização Internacional das Migrações (OIM) elegem o novo diretor-geral do organismo para um mandato de cinco anos e o ex-ministro português está entre os três candidatos que disputam o cargo. O norte-americano Ken Isaacs e a costa-riquenha Laura Thompson, a atual vice-diretora-geral da organização, são os outros nomes que compõem o painel de candidatos.

Portugal formalizou a candidatura de Vitorino em dezembro de 2017, pouco mais de um ano depois da “vitória” de uma outra candidatura: a aclamação pela Assembleia-geral da ONU em outubro de 2016 do ex-primeiro-ministro português António Guterres como secretário-geral.

“Acho muito importante que um Estado como Portugal”, durante muito tempo “se acanhou de apresentar candidaturas com visibilidade, de alguma maneira percebeu, de facto, que as suas candidaturas têm uma grande mais valia. Às vezes são estes Estados médios que conseguem ter mais apoio e também levantar, no fundo, menos objeções”, realçou a professora e investigadora principal do Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica.

“E a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU mostrou isso”, frisou a especialista, recordando ainda o caso de José Manuel Durão Barroso, que assumiu a presidência da Comissão Europeia de 2004 a 2014.

Para Lívia Franco, estes casos comprovam que, enquanto ator internacional, Portugal tem “um perfil bom, um perfil intermédio, um perfil com simpatias em todos os cantos do mundo, com uma rede diplomática de apoio que é muito boa” e, como tal, “é muito bom que a política externa portuguesa, a máquina diplomática portuguesa, vá sempre propondo boas candidaturas” a lugares de grande visibilidade.

A investigadora do IEP sustentou que “a candidatura boa” de Vitorino prossegue esse caminho e, mesmo que não seja a mais votada, “é sinal que a diplomacia portuguesa está muito viva, muito ativa”.

No caso concreto desta candidatura à OIM, a postura de Portugal em relação às questões migratórias, nomeadamente no acolhimento de refugiados no contexto na União Europeia (UE), o “consenso forte” registado entre os partidos nacionais com assento parlamentar em matéria de políticas de acolhimento e integração (ao contrário do que é verificado em outros Estados europeus) e o próprio comportamento cultural do país são aspetos que poderão ser encarados como mais-valias pelos Estados-membros da organização, que desde 2016 integra a estrutura multilateral da ONU, segundo a especialista.

Apesar destes pontos a favor da candidatura portuguesa, a par da experiência de António Vitorino em vários cargos de relevo nomeadamente como comissário europeu, Lívia Franco admitiu que “à partida, não é a candidatura mais forte”.

Vitorino “não tem sido propriamente um homem do terreno”, salientou a comentadora, referindo que este aspeto poderá colocar o candidato português em desvantagem em relação, por exemplo, à costa-riquenha Laura Thompson, vice-diretora-geral da OIM desde setembro de 2009.

As questões de género também poderão pesar na votação de sexta-feira, mencionou ainda Lívia Franco.

“Não há muitas organizações internacionais que têm tido nos seus cargos administrativos principais mulheres”, recordando que em 2016 durante o processo de seleção para a liderança das Nações Unidas este foi então um dos critérios mais mencionados.

“Agora, por outro lado, sendo alguém [Laura Thompson] que já está em funções na organização, pode haver Estados que não estejam contentes com as medidas que estão a ser tomadas ou Estados, por exemplo, que queiram variar (…) para um candidato europeu”, finalizou.

Fundada no início da década de 1950, OIM foi sempre liderada por um norte-americano à exceção na década de 1960 quando um holandês assumiu o cargo.