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Lusoscopia: Manuel Cargaleiro expõe em Paris

O artista Manuel Cargaleiro é conhecido por obras como os painéis de azulejos de uma estação do metro em Paris, mas menos conhecidas são as histórias com emigrantes que lhe batiam à porta nos anos de 1960 e 1970.

O pintor e ceramista português, de 90 anos, vai ter obras em exposição, a partir de quarta-feira, até ao final do mês, na Hélène Bailly Gallery, no âmbito da “Lusoscopia”, um evento que promove nove exposições simultâneas de artistas portugueses em Paris, em maio.

Manuel Cargaleiro, que vive em Paris desde 1957, recebeu a agência Lusa no seu ateliê repleto de telas e centenas de desenhos e guaches, e aceitou contar algumas histórias dos tempos em que muitos emigrantes portugueses lhe batiam à porta, nos anos 60 e 70, à procura de ajuda, depois de uma longa viagem “a salto” para França.

“Entravam pela França a pé e depois iam juntar-se ao táxi na fronteira, e o táxi trazia-os à minha casa na Rue de Grands Augustins em Paris. E deixava-os: ‘Está aí um português, procurem-no’. A minha porteira zangava-se toda. Eram sacos de juta lá com a roupita deles. Eles iam lá bater à porta a dizer ‘Eu sei que o senhor pode arranjar não sei quê, não sei quê’. E eu lá os recebia”, lembrou o artista.

O então jovem emigrante reencaminhava os portugueses para a associação do “Abbé Glasberg”, um padre seu amigo que dirigia o Centro de Orientação Social dos Estrangeiros dedicado ao acolhimento de refugiados e emigrantes, tendo-lhe também oferecido quadros para vender em exposições cujo dinheiro revertia para ajudar os estrangeiros.

São muitas as histórias de pessoas que lhe foram bater à porta, quando ainda era um artista pouco conhecido, mas Manuel Cargaleiro considera que “há coisas que é melhor não contar”, lembrando, apenas, que um dia teve a visita inesperada de dois irmãos fugidos da Revolta de Beja, uma tentativa de golpe civil e militar para derrubar a ditadura, que aconteceu na noite de 31 de dezembro de 1961 para 01 de janeiro de 1962.

“O meu pai era agricultor e havia um rapaz que trabalhava lá no grémio da lavoura, e o irmão dele fez parte do golpe de Beja. Houve lá uma pequena revolução. Eles fugiram para cá, dois irmãos. Vieram ter à minha casa sem nada, não tinham mala”, recordou.

Em Paris, Cargaleiro viveu sempre no sexto bairro, que considerava como “uma aldeia de artistas”, tendo arrendado um apartamento com os artistas Lourdes Castro e René Bertholo, em 1958, na Rue du Vieux-Colombier.

Depois, instalou-se no número 19 da Rua des Grands Augustins, em 1959, onde foi vizinho de Pablo Picasso, com quem nunca se atreveu a falar, apesar de se ter cruzado “várias vezes” com ele, na Brasserie Lipp e no Café de Flore.

“Ouça, eu nunca quis falar com o Picasso. Eu tinha uma admiração tão grande, tão grande pelo Picasso que achei que o Picasso era um génio e não tinha nada para lhe dizer. O que é que eu ia dizer ao Picasso? ‘Gosto muito de o conhecer, o senhor é um génio?’ Não lhe ia dizer, é ridículo”, considerou.

Naquele tempo, quando em Paris “havia uma vida artística muito intensa”, Manuel Cargaleiro conviveu com nomes precursores como Max Ernst, Hans Arp, Serge Poliakoff, Alfred Manessier, Sonia Delaunay, Zao Wou-Ki, Maria Helena Vieira da Silva, Arpad Szènes, Roger Bissière, Natalie Gontcharova e Michel Larionov.

“Eu considerava isto quase um convento. Era um meio um bocado fechado. Nós, à noite, sabe o que fazíamos? Não imagina a atividade que nós tínhamos. Juntávamo-nos todos no café: ‘Oh pá, não tenho dinheiro para ir comer, um pode, outro não pode. Olha, vamos todos para a casa deste.’ Comprava-se umas garrafas de vinho, um esparguete, queijo e já está”, descreveu.

Em 1990, o artista mudou-se para o Boulevard Raspail, onde vive ainda hoje, e nunca pensou regressar a Portugal.

“Ai não, não. Nunca quis ir definitivamente para Portugal. Ia lá passar o verão, ia lá passar épocas assim. Nunca quis deixar Paris porque no fim de estar algum tempo em Portugal tinha umas saudades, uma vontade de vir”, afirmou, sublinhando que “em França trabalhava para o mundo inteiro”, enquanto “em Portugal trabalhava para os portugueses”.

Em França, onde realizou a primeira exposição individual em Paris, em 1963, na Galeria Valérie Schmidt, Manuel Cargaleiro executou vários trabalhos de arte pública, além da conhecida estação de metro de Champs-Elysées Clémenceau (1995), como os painéis cerâmicos para o Liceu de Sauges (1971), o Centre Scolaire d’Antibes (1972), o Centre Scolaire em Limoges (1973), a companhia de Seguros Império em Paris (1996) e a Caixa Geral de Depósitos, também em Paris (1997).

A 16 de março, dia em que fez 90 anos, Manuel Cargaleiro recebeu das mãos do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, e, a 20 de março, foi condecorado com a medalha de ouro de Castelo Branco, onde está localizada a sua fundação e museu.

O artista, que expôs e executou trabalhos de arte pública em vários países, já tinha sido distinguido, no Dia de Portugal de 1982, com a Ordem da Cruz de Santiago e Espada pelo Presidente Ramalho Eanes, tendo, em 1988, também no Dia de Portugal, recebido a Grã-Cruz da Ordem do Mérito das mãos do Presidente Mário Soares e, em 1984, recebeu o grau de “Officier des Arts et des Lettres” pelo governo francês.