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“Impunidade” de H. G. Cancela

Ficha técnica

Título – Impunidade

Autor – H. G. Cancela

Editora – Relógio D’Água

Páginas – 222

Opinião

Uma semana se passou desde que terminei esta leitura e tenho plena consciência de que, mesmo tendo-se passado esse tempo, não sou ainda capaz de pôr em escrito o tamanho da estupefação, da incredulidade e da vontade de esmurrar algo, alguém (o autor, as personagens?…) que senti e ainda sinto.

Esta não é de maneira alguma uma opinião fácil de escrever. Como não o foi ler a primeira obra deste autor que caiu na minha estante. Não sei como colocar em palavras tudo o que li, tudo o que senti, o aturdimento que me acompanhou do início ao fim, as vezes que deparei comigo mesma encolhida, de punhos cerrados, a morder esses punhos cerrados, de respiração suspensa e com uma vontade desmedida de abanar a todos, de sacudi-los para que despertassem, de esmurrar violentamente aquele pai, aquela mãe, de gritar-lhes todo o tipo de insultos e de arrebatar-lhes as duas crianças e enroscá-las no meu colo até que elas pudessem sentir, pela primeira vez, o que é ser acarinhado, amado, o que é estar vivo.

Sabia que nunca sairia igual desta leitura, como nunca saio a mesma de qualquer leitura. Mas esta é incomportavelmente mais dura, mais crua, mais violenta do que qualquer outra. É claro que, sendo eu uma leitora obcecada pela Segunda Grande Guerra, estou familiarizada com a dor, a tortura, a violência no seu estado mais puro, porém confrontar-me com a indiferença, o alheamento e o desapego que aqueles pais demonstram face ao abandono a que votaram os seus próprios filhos foi excruciante. E se a isso se acrescentar a brutalidade que usam entre si, a relação física de pendor animalesco que os faz buscarem-se um ao outro, o dia após dia de duas crianças que apenas contam consigo mesmas para sobreviver, então atinge-se um sofrimento insuportável. Inclusive para os leitores mais habituados à dor e à violência nua e crua.

Se fizermos uma pesquisa online, constatamos que esta obra de Cancela e já agora o próprio autor não atingem grandes níveis de popularidade. Na rede social Goodreadspoucos foram os que partilharam as suas impressões sobre Impunidade. Todavia, aqueles que o fizeram estão de acordo comigo – esta é uma obra com contornos de perfeição, recheada de momentos no mínimo perturbadores, de passagens nas quais o narrador filosofa sobre a natureza humana, o que tem de mais primário, o quanto os nossos instintos mais básicos tingem as nossas ações e de personagens que odiamos com todas as nossas forças, que nos revoltam o estômago, mas que talvez apenas estejam a viver a vida tal como lhes ensinaram a viver.

Por ser chocante, por ser opressivo como o calor sufocante de Sevilha, por ser terrivelmente perturbador e agoniante não recomendo Impunidade a quem não aguenta os referidos graus de dureza e violência e muito menos a quem é progenitor e não consegue ser espetador de cenários de abandono voluntário, de desamor, de indiferença perante o que possa necessitar um ser que nasceu porque um homem e uma mulher fornicaram sem pensar nas consequências. Contudo, e antiteticamente, imploro a que conheçam H. G. Cancela, que leiam o que ele publicou até agora, pois um autor que escreve uma obra comoImpunidade tem que ser conhecido, tem que ser lido, tem que ganhar o seu lugar muito merecido no panorama da literatura nacional.

Finalizo dizendo o que se depreende do que referi até agora – esta foi uma das leituras de 2017, uma das descobertas do ano. Como tal, atribuo-lhe a nota máxima, mesmo que isso me agonie e me revolva as entranhas…

NOTA – 10/10

Sinopse

Um homem caminha primeiro a pé, tacteando no escuro, depois de automóvel, conduz toda a noite, dorme na pressa de um hotel, retoma a viagem primeiro ainda em terras portuguesas, depois em Espanha.

Em Sevilha sobe ao último andar de um prédio. Tem a chave da porta, a casa está desarrumada e nela se encontram duas crianças adormecidas quase entre sinais de abandono. «Aproximei-me da cama maior. O rapaz tinha apenas as cuecas vestidas. Magro, as pernas esguias, o cabelo comprido. Ouvia-se a respiração. Rápida, regular, entrecortada por pausas de onde emergia com uma aspiração sufocada. Da outra cama, não se ouvia nada. A menina estava despida, com o cabelo espalhado pelo rosto e as pernas cobertas com a ponta do lençol. Apoiei-me nas grades, debrucei-me e afastei-lhe o cabelo. Não se mexeu. Respirava devagar, com os lábios entreabertos e um quase insensível movimento do peito. Parecia fria, apesar do calor, o corpo contraído, a cabeça colada aos joelhos. Tinha os lençóis húmidos em redor das coxas. Na penumbra, a sua pele esbatia-se contra o tecido branco.» 

Este é o início de uma história inesperada, dura, com o «esplendor das coisas ameaçadas».

 

in O sabor dos meus livros